Você pode ter uma boa noção da formação cultural de um povo pela maneira que ele se refere e cultiva a própria história. O passado não só nos mostra como era a nossa sociedade; conta como chegamos até aqui e serve de exemplo para as gerações futuras, principalmente para que erros não voltem a ser cometidos.
BH não pode, infelizmente, ser usada como exemplo de cuidado ao patrimônio. Embora seja relativamente nova, há muita história para ser contada por meio das casas, ruas e praças. E essa memória está sendo constantemente apagada pela falta de respeito e pela especulação imobiliária, na mesma velocidade que marcou o crescimento da capital no século passado.
Somente neste ano é que conseguimos o título de patrimônio mundial para a Pampulha, complexo de referência para a arquitetura moderna. E justamente a arquitetura que é uma das mais importantes áreas que pode contar como um pequeno arraial se transformou em uma metrópole de mais de 2,5 milhões de habitantes em pouco mais de um século.
Ao todo, 24 imóveis tombados estão em péssimas condições na cidade. O número pode parecer pouco frente às 767 edificações que possuem o título de patrimônio, mas às vezes uma construção dessa pode ser parte importante da história da capital.
Impressiona o fato de os donos desses imóveis os deixam se deteriorar de propósito, na esperança que o tombamento seja revogado ou que o imóvel se desfaça de vez, com o objetivo de vender a área.
Isso mostra um pensamento restrito e retrógrado. A história de um imóvel pode ser fator preponderante para atrair negócios variados e gerar lucro a longo prazo para o proprietário. É só buscar os exemplos que existem em várias partes do mundo e adaptá-los à nossa realidade.
O poder público também precisa ajudar mais e aumentar o número de imóveis tombados, que não chega a 0,5% em BH, e incentivar a preservação, com premiação e facilitação de busca de recursos para conservação.
A ignorância (na essência da palavra) do brasileiro para a preservação do seu patrimônio, e, consequentemente, de sua história, talvez seja a explicação para que até hoje não termos encontrado um modelo satisfatório de sociedade. Sem respeito pelo passado, deixaremos de ser o país do futuro, que nunca chega.