Não foi por falta de aviso. Mesmo com todos os alertas de infectologistas, autoridades da saúde e da maioria dos gestores municipais e estaduais, sem falar no (triste) exemplo em que se transformaram países como Itália, Espanha e Estados Unidos, muita gente segue ignorando a ordem para o isolamento social. Medida mais eficaz – para não dizer única – capaz de desacelerar a propagação do novo coronavírus, foi somente a quarentena que conseguiu de alguma forma reduzir os casos de Covid-19 e as mortes que viriam aos montes, como consequência.
Uma solução prosaica, que talvez até soasse como uma piada (de mau gosto) há um ano, se alguém sugerisse que para deter uma doença seria necessário trancar as pessoas em casa, em todas as partes do globo, por um número indefinido de dias, em pleno século XXI.
Mas aconteceu, trazendo uma série de consequências – econômicas e sociais – que ainda não conseguimos mensurar, pois seguimos contamos mortos, leitos de UTI, respiradores e máscaras, numa matemática trágica que precisa ser feita para escancarar ao mundo o óbvio: se ainda não há remédio, se ainda não há vacina, temos que lutar com o que for possível – e cada vida salva terá feito o esforço valer a pena.
O que muitos não imaginavam é o quanto seria difícil convencer as pessoas de que isolamento é o que é: isolar-se, manter-se afastado, recluso. Não é (ou não deveria ser) férias, nem desculpa para ficar em casa, nem pretexto para não ir ao escritório ou à aula, muito menos um salvo-conduto para reunir a turma, no meio da semana, naquele sítio afastado e bem discreto de um primo.
Por isso, chega a beirar o absurdo a Prefeitura de BH ter que pensar em alternativas drásticas para que os belo-horizontinos deixem de passear – sim, passear! – em locais a Praça da Assembleia, da Liberdade ou a orla da Pampulha. Não existe prevenção pela metade. Não há o menor cabimento em usarmos uma doença que já atingiu 1 milhão de pessoas no mundo, matando milhares delas, para justificar um enclausuramento conveniente, que só coincide com os dias úteis ou com aqueles em que não temos tempo disponível ou um programa melhor para fazer. O novo coronavírus parece ser mais letal para alguns mas, ao atacar, não escolhe vítimas. Não seja o tolo que vai girar o tambor do revólver e apontá-lo contra a própria cabeça.