Estarrecedora por si só, a denúncia de estupro coletivo contra uma estudante de 19 anos traz um alerta para quem ainda acreditava, ou fingia acreditar, que barbáries desse tipo estão restritas a topos de morro.
Desta vez, a vítima é universitária, de família e escola tradicionais. Ao que tudo indica, vem de um lar estruturado. Foi o pai quem levou pessoalmente o caso à polícia e, pelo desenrolar dos fatos, é provável que também tenha apoiado a filha no sentido de não engolir a vergonha e o trauma, ficando calada. Tanto que a jovem publicou um desabafo no Facebook.
Além da violência em si, o que aproxima o episódio da menina de BH do caso da adolescente do Rio atacada no Morro da Baronesa é o fato de serem mulheres. E de por isso terem despertado a fúria primitiva de homens que, pelos relatos das vítimas, não apenas se acharam no direito de violá-las como trataram de “justificar” por aí que as relações foram consensuais, embora vários elementos apontem o contrário.
Quem insiste em afirmar que a jovem fluminense provocou ou contribuiu para o próprio estupro, por ter sido mãe aos 13, usar short e frequentar bailes funk, deve estar encolhido em casa, maquinando uma forma de explicar como a aluna da Fundação João Pinheiro pôde ser vítima de uma atrocidade tão parecida, em que os suspeitos são servidores públicos.
A violência contra a mulher não chegou à classe média. Sempre esteve lá e também faz vítimas entre os mais abastados, mas difícil mesmo é ver alguém ter coragem de se expor para cobrar punição ou alertar sobre o problema sabendo que isso poderá custar a si e à família julgamentos de terceiros e vários dedos apontados no trabalho, na escola e na vizinhança.
Sem falar que, embora boa parte da sociedade tenha a cruel tendência de ser mais solidária com vítimas financeiramente privilegiadas, sempre haverá alguém para dizer que a mineira também pode ter contribuído para o estupro. Que deve ter bebido; “dado mole” a um dos rapazes; ou até subido para o quarto com ele, ou com os três. Argumentos cruéis e descabidos, principalmente considerando que a garota, tal qual a menina do Rio, alega que estava desacordada enquanto era molestada, prova irrefutável da covardia e um sinal, talvez, de premeditação.
Das duas tragédias, o que se espera é que se sirvam de lição para as famílias. Não para proteger as filhas. Mas para criar filhos dignos que, pobres ou ricos, sejam capazes de respeitar as mulheres em qualquer situação.