O retrato dos efeitos das chuvas em Minas Gerais, entre desabrigados e mortos, traz à tona novamente, no próprio discurso dos administradores públicos, uma constatação preocupante. Muitos dos deslizamentos de terra e vítimas fatais decorrentes são frutos de uma ocupação descontrolada em regiões de risco geológico.
Um fenômeno que não começou agora e, acima de tudo, não se resolverá a curto prazo. Mas que exige uma abordagem sistêmica e integrada.
É preciso voltar no tempo e tentar entender as raízes sociais de um movimento de inchaço da capital e da Região Metropolitana a partir do interior do Estado, em busca de melhores condições de vida e oportunidades. O que coincidiu, em boa parte, com a expansão de Belo Horizonte para além do perímetro da avenida do
Contorno que, nos planos iniciais, delimitaria a área urbana da cidade.
A geografia irregular acabou oferecendo espaços nem sempre seguros para o crescimento habitacional; situação que se repete nos municípios do entorno, que se tornaram destinos uma vez que BH começou a ver suas áreas para expansão populacional escassearem.
Apesar das primeiras tentativas de urbanização ordenada, muitas ainda são as áreas de risco identificadas pela Defesa Civil – uma preocupação que não pode ser tomada apenas para o atual período chuvoso, mas constituir a base para uma política de realojamento que leve à desocupação dos locais críticos.
É bem verdade que o problema vai muito além da ‘simples’ mudança das famílias, já que envolve também o aspecto psicológico, o apego construído ao longo de gerações e mesmo o temor pelo novo. Infelizmente a tragédia se ampliou com casos de quem havia sido retirado das casas pela Defesa Civil e resolveu retornar, ainda que por pouco tempo.
Cumpre, não só em Belo Horizonte; como não só por parte das prefeituras dos municípios afetados, encarar a questão como problema prioritário. Trabalhar com as comunidades atingidas, buscar vencer resistências e adotar um planejamento forte o suficiente para atravessar gestões e ir além de diferenças políticas é algo urgente. Do mesmo modo que aproveitar o período sem chuvas para agilizar ações de menor porte e empregar as lições aprendidas com os temporais recentes.