Editorial.

Respostas para outra tragédia

Publicado em 09/06/2020 às 20:48.Atualizado em 27/10/2021 às 03:44.

A pandemia de Covid-19 quase fez esquecer que, em Belo Horizonte, antes dela, houve duas outras tragédias este ano. A primeira delas, aliás, começou a se desenhar no fim de 2019, com a descoberta de que lotes da cerveja produzida pela Backer haviam provocado intoxicações por dietilenoglicol que deixaram um saldo de sete mortes confirmadas e 29 pessoas atingidas. Em um primeiro momento, muito foi dito, especulado e aventado, sem que fosse possível estabelecer um nexo que indicasse o que provocou o problema e quais as eventuais responsabilidades e culpas pelo ocorrido, bem como sua extensão.

Algo agora possível diante do relatório de 4 mil páginas que conclui o inquérito aberto pela Polícia Civil para investigar o caso. Foram ouvidas 70 pessoas; perícias feitas não só nos lotes do material produzido pela empresa, como também em suas instalações por especialistas; engenheiros e químicos, de modo a ligar os pontos de uma história até então incerta.

O que se descobriu descarta a possibilidade de ação criminosa ou premeditada, mas é igualmente grave. Afinal, foram identificadas rachaduras nos tanques de preparo da cerveja pelos quais o dietilenoglicol (ou o equivalente monoetilenoglicol, igualmente tóxico) se misturavam ao produto. E em concentrações elevadas a ponto de, nas palavras de um dos legistas que participaram das investigações, provocar a morte pelo consumo de apenas uma garrafa.

Se em qualquer atividade econômica é fundamental seguir as regras e procedimentos sanitários específicos, tanto mais no que diz respeito à alimentação e bebidas. A gestão dos materiais e o controle das diversas fases de produção devem sempre ser rigorosos, sob pena de se verificar casos como o ocorrido no estado. As vidas levadas pelo conjunto de circunstâncias não serão recuperadas; tampouco a dor de familiares e os efeitos (físicos e psicológicos) provocados nos que sobreviveram. Cumpre, no entanto, assistir os atingidos e mitigar as consequências dentro do possível. À Justiça caberá analisar o resultado das investigações e decidir pela prática ou não dos crimes imputados aos indiciados, e em que grau. E como em qualquer situação trágica, ficam as lições e ensinamentos, que devem ser cuidadosamente analisados e aplicados, para que algo do gênero não mais se repita.
 

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