Desde que começaram a ser sentidos os impactos da pandemia de Covid-19 na economia brasileira, surgiu o temor de que duas condições pudessem conviver ao mesmo tempo, dificultando um esforço de retomada e recuperação da atividade: a elevação de preços - em alguns casos provocada pelas consequências do novo coronavírus - e um cenário de menor volume de dinheiro em circulação, com o elevado volume de dispensas, fechamentos de estabelecimentos e mesmo a redução temporária de salários, alternativa apresentada pelo Governo Federal para limitar as demissões e garantir a sobrevivência de empresas.
Não custa lembrar que 2020 já começou com uma desvalorização significativa do Real em relação ao Dólar, o que só foi agravado com a busca de investidores e países por reforçar suas reservas na moeda norte-americana. Considerando-se a dependência existente, especialmente em termos de componentes e produtos de alta tecnologia, era natural esperar por preços mais altos em larga escala. No sentido oposto, os produtos brasileiros que puxam nossa cesta de exportação viram a procura aumentar e as vendas para o exterior se tornarem ainda mais atraentes: casos da carne, da soja, do arroz, que encareceram nas gôndolas dos supermercados em Minas.
É fundamental recordar ainda que os efeitos benéficos da injeção de recursos no mercado por meio do auxílio emergencial têm data para terminar, e provocar mais um foco de desaquecimento. Ainda que a inflação oficial se posicione dentro da meta estabelecida pela equipe econômica, a tendência é que o consumidor, diante das altas, passe a comprar menos, por ter menos dinheiro no bolso, e diante do temor de uma piora na situação. E não é preciso ser especialista para entender que, com isso, haverá menos vendas e menor perspectiva de criação de postos de trabalho.
Ainda que se preze hoje pelo livre comércio, a necessária regulação pública deve se fazer ainda mais presente, para evitar abusos e gerar alternativas que limitem a ação inflacionária, ao mesmo tempo em que se crie condições para o reaquecimento econômico. Dar fim à inércia que fez com que a roda da atividade produtiva deixasse de girar dependerá de ações efetivas, que levem em conta todos os lados da equação: o de quem empreende, o de quem contribui com a força de trabalho, e o de quem, agora, se vê obrigado a lutar por um reposicionamento.