DONA DA Mazza Edições

‘As crianças se reconhecerem nas histórias sempre foi meu objetivo’, diz Maria Mazzarello

Pioneira no mercado editorial voltado para a literatura negra, mineira de Ponte Nova enfrentou preconceitos e obstáculos para fundar a editora, que completou 45 anos em 2026

Gabriela de Castro*
gabriela.castro@hojeemdia.com.br
Publicado em 27/07/2026 às 07:15.

Aos 85 anos, Maria Mazzarello dedicou praticamente metade da vida à Mazza Edições, primeira editora especializada na publicação de literatura negra no Brasil. Nascida em Ponte Nova, na Zona da Mata, a mineira ficou marcada, ainda na infância, pelo impacto do racismo. “Queria participar da coroação de Nossa Senhora, mas não podia porque diziam que menina preta não podia ser anjo”, conta.

Ao se mudar para Belo Horizonte no início da adolescência, enfrentou diversos obstáculos e preconceitos para acessar novas oportunidades e acabou se encontrando no mercado editorial. Quando teve a possibilidade de estudar na França, Maria Mazzarello voltou para o país natal disposta a publicar autores negros. Assim nasceu a editora, que completou 45 anos em 2026.

Ao Hoje Em Dia, Maria Mazzarello conta a própria trajetória de pioneirismo e como foi montar a Mazza Edições do zero. Ela também comenta os impactos da Lei Federal 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, e indica obras da literatura negra que considera indispensáveis.

Como teve início sua relação com a literatura?
Foi durante minha infância. Meu pai morreu cedo e minha mãe criou nove filhos lavando roupa para fora. Ela sempre trouxe livros e jornais das casas onde trabalhava. Eu aprendi a ler aos 4 anos, talvez porque meus irmãos já estivessem na escola e levassem as cartilhas para casa.

Quando completei 13 anos, minha mãe já tinha dois filhos morando em Belo Horizonte. Ela acreditava que, em Ponte Nova, nosso futuro seria limitado, principalmente por ser uma cidade muito preconceituosa. Ela pensava que viver em uma capital nos daria mais oportunidades.

E como foi essa mudança?
Chegando a BH, eu estudava à noite na Escola Comercial Tito Novais e trabalhava de dia. Minha tia conseguiu um emprego para mim como secretária de um médico para quem ela lavava roupa. Trabalhei nesse consultório até os 16 anos. Porém, chegou um momento em que senti que precisava ganhar mais, porque o médico pagava muito pouco. Eu queria receber salário mínimo e ter carteira assinada. 

Depois comecei o curso de contabilidade no Instituto Municipal de Administração e Ciências Contábeis (Imaco). Sofri muito preconceito na busca por emprego, até conseguir uma oportunidade na gráfica do Instituto de Educação. Chegando lá, vi uma IBM Executive elétrica, uma máquina de escrever bem diferente das comuns. Eu não fazia ideia de como ligar aquilo, muito menos de como operar. Quando me contaram que o teste ia ser nessa máquina, na mesma hora comecei a chorar. 

O rapaz que ia aplicar o teste ficou muito sensibilizado com a situação, saiu da sala e foi conversar com o chefe da gráfica. Quando voltou, disse que, infelizmente, a única função que eu poderia ocupar era de faxineira. Eu perguntei a ele: “Assina minha carteira? Paga salário?”, e ele disse que sim. Então respondi que podia me contratar. Enquanto fazia a faxina, ficava vendo como os livros eram produzidos, como os originais chegavam, como todo aquele processo funcionava. Aos poucos fui conhecendo todo o processo editorial.

E enquanto isso você ainda estava fazendo o curso de contabilidade? Ou já tinha terminado?
Estava quase terminando. Só que aí acabei ficando muito amiga de uma das secretárias dos americanos que estavam recuperando o Instituto de Educação, e ela me disse que, com a minha capacidade, eu deveria cursar jornalismo. Eu acreditava que não tinha preparo para enfrentar o vestibular, mas acabei passando para a segunda turma do curso na UFMG.

Mais tarde, eu trabalhei em editoras fundadas por pessoas ligadas à UFMG e depois tive a oportunidade de estudar editoração na França com uma bolsa. Lá, percebi algo que nunca tinha reparado no Brasil: havia muitos escritores negros publicados. Foi quando me dei conta de que, mesmo trabalhando com livros havia tantos anos, eu nunca tinha editado um autor negro. Aquela experiência mudou completamente minha forma de enxergar o meu trabalho.

Foi aí que surgiu a ideia de criar a Mazza Edições?
Isso! Eu tinha recebido uma proposta para permanecer na França e fazer doutorado. Mas eu queria voltar pro Brasil e abrir uma editora para publicar autores negros. Ouvi muito que eu estava louca, que não tinha dinheiro nem estrutura. Mas não tirei a ideia da cabeça.

A primeira coleção que imaginei chamava-se “Essa História Eu Não Conhecia”. A proposta era contar a história da população negra sob outra perspectiva, diferente daquela que aprendemos na escola. Mostrar quem eram essas pessoas antes da escravidão, qual foi sua contribuição para a formação do Brasil e apresentar uma narrativa construída a partir do nosso próprio olhar.

Quando voltei, comecei praticamente do zero. Aproveitei equipamentos antigos que haviam ficado em uma das editoras que eu trabalhei e fui recuperando o que era possível. Antes mesmo disso, eu havia comprado um terreno para construir uma casa para minha mãe. Com ajuda de amigos arquitetos e engenheiros, consegui construir a casa, onde também montei uma pequena gráfica. Então surgiu a pergunta: “Como vai se chamar a editora?”. Várias ideias apareceram, até que alguém disse: “Por que não Mazza?”. O nome acabou pegando, e assim nasceu a Mazza Edições.

Como foi o processo de encontrar os autores que seriam publicados?
Quando comecei, eu não sabia onde estavam os intelectuais negros brasileiros, nem outros escritores negros publicando. Foram quase dez anos de muita luta. Eu publicava a coleção “Essa História Eu Não Conhecia”, enquanto o movimento negro ajudava a divulgar esse material. 

Além dos livros voltados para professores e para a formação da população negra, eu tinha outra preocupação: fazer livros para crianças negras. Quando eu era criança, os personagens negros apareciam sempre de forma estereotipada. Eram feios, caricatos, ocupavam lugares de inferioridade. 

Foi daí que nasceu a coleção “De Lá Pra Cá”. A ideia era recontar contos clássicos, mas trazendo personagens negros e cenários brasileiros. O primeiro livro foi Rapunzel. Eu queria que aquela menina tivesse cabelo crespo, traços negros e uma história que dialogasse com a nossa realidade. Foi difícil encontrar um ilustrador que entendesse exatamente o que eu queria. O primeiro desenho trazia uma menina com pele negra, mas com traços completamente europeus. Só na terceira tentativa nós encontramos a Rapunzel que eu imaginava.

Quando o livro ficou pronto, percebi que era exatamente aquilo que eu queria oferecer às crianças: personagens negros bonitos, fortes e protagonistas de suas próprias histórias. Além disso, as crianças conhecem a fauna, a flora e a cultura do Brasil. A coleção cresceu, vieram Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Erva-Mate, Bela do Reino do Samba, Flautista do Cariri… Esse sempre foi meu objetivo: que as crianças se reconhecessem nas histórias e entendessem que também fazem parte delas.

Em 2003, foi aprovada a Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Como foi o diálogo da Mazza Edições com as escolas públicas de BH depois dessa legislação? A medida impulsionou a editora?
A lei foi um divisor de águas, pois abriu um espaço que antes praticamente não existia. Durante muitos anos, a Mazza foi uma das poucas editoras do país especializada nesse tipo de publicação. Muitos escritores que começaram na Mazza seguiram outros caminhos e passaram a integrar catálogos de editoras maiores. Isso nunca me incomodou, a proposta da Mazza sempre foi abrir portas. Nós publicamos autores como Conceição Evaristo, Edimilson de Almeida Pereira, Cuti e tantos outros que hoje são reconhecidos nacionalmente. 

Então, a lei foi extremamente importante, mas ela ainda está longe de ser plenamente cumprida. Hoje a Mazza tem menos espaço do que já teve, nós dependemos muito das políticas públicas. Nossos livros não perderam qualidade, mas o mercado mudou. As grandes editoras têm muito mais estrutura de divulgação, equipes comerciais e poder de negociação junto às escolas e aos sistemas de ensino.

Alguns livros da Mazza falam sobre os orixás e outros elementos das religiões de matriz africana para o público infantil e juvenil. Já houve casos de intolerância religiosa em relação a essas publicações?
Muitas vezes, quando esses livros chegam às escolas, as famílias reclamam e pressionam para que sejam retirados. Isso mostra que ainda há muito preconceito. A lei abriu um caminho importante, mas, na prática, ainda existem muitas escolas que não trabalham a história e a cultura afro-brasileira como deveriam.

Durante muito tempo, as religiões de matriz africana foram tratadas com preconceito. Muita gente conhece muito pouco sobre elas e acaba reproduzindo estereótipos. A literatura também pode ajudar a combater esse desconhecimento. Eu sempre achei que não adiantava falar da cultura afro-brasileira sem falar também da religiosidade.

E como você vê o cenário da literatura negra em BH e em Minas? Tem autores que você destacaria e que acha que mais pessoas deveriam conhecer?
Aqui em BH, por exemplo, tem o Ricardo Aleixo, que é um autor extraordinário. Tem ainda o Edimilson de Almeida Pereira, um escritor de altíssimo nível, e também o Olegário Alfredo, que é cordelista e músico. Minas Gerais sempre teve uma tradição muito forte na literatura, e isso continua acontecendo.

Hoje também vejo uma mudança importante no mercado editorial. Quando comecei, praticamente não existiam editoras dirigidas por mulheres negras. Agora há iniciativas em São Paulo, no Rio, no Nordeste e em várias outras regiões do país.

Pra fechar: se você tivesse que indicar um livro da Mazza Edições e um livro da literatura brasileira que todo mundo deveria ler, quais seriam?
Da Mazza, eu indicaria Leite do Peito, da Geni Guimarães. É um livro muito importante, que acompanha a trajetória da personagem e toca em questões profundas de identidade, educação e vida. E, da literatura brasileira, sem dúvida, Um Defeito de Cor, da Ana Maria Gonçalves. É um livro extraordinário. Todo mundo deveria ler.

* Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca

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