Ações da Petrobras caem quase 10% e atingem o menor valor em 10 anos

Agência Estado
Publicado em 16/12/2014 às 09:03.Atualizado em 18/11/2021 às 05:24.

Os investidores do mercado financeiro derrubaram em quase 10% na segunda-feira (15), as ações da Petrobras na Bolsa de Valores, fazendo o papel chegar a um dos menores níveis dos últimos dez anos. A forte queda em um único dia foi puxada principalmente pelos acionistas estrangeiros. A empresa prometeu que, na sexta-feira (12), divulgaria seu balanço do terceiro trimestre e não o fez. Publicou apenas um fato relevante, com alguns números de sua operação, e fez uma nova promessa: a de que fará o que for preciso para manter seu caixa e assim pagar suas dívidas sem precisar recorrer a financiamentos em 2015.

"Uma boa promessa, mas difícil de ser mantida", resumiu o banco Credit Suisse em relatório dos analistas Andre Sobreira e Vinicius Canheu. "Para ganhar a confiança do investidor, a Petrobras terá de dar muitos detalhes trimestre a trimestre de que é capaz de fazer isso. Sem conversa fiada", disseram os analistas, lembrando das tantas promessas não cumpridas pela companhia, como metas de produção não alcançadas, mudanças de fórmulas de preços da gasolina que não foram feitas, além do fato de a empresa não ter publicado o balanço.

No começo do pregão de ontem na bolsa brasileira, as ações caíam quase 2% segundo Ricardo Kim, da XP Investimentos, e assim que os mercados nos EUA abriram, onde parte das ações da estatal é negociada, começou a derrocada. Na Bolsa de Nova York, os American Depositary Receipts (ADRs) da Petrobras caíram 12,1%, fechando a US$ 6,08, o valor mais baixo desde março de 2003.

No Brasil, as ações preferenciais chegaram a R$ 9,18, com queda de 9,2% e atingindo a mínima desde janeiro de 2005, enquanto a ação ordinária, com direito a voto, fechou a R$ 8,52, queda de 9,94%, menor preço desde agosto de 2004. Com variação de cerca de 10% durante a sessão, a venda dos papéis da Petrobras foi interrompida e eles entraram em leilão.

Os analistas dizem que a forte venda dos papéis se deu ainda por causa da alta do dólar ante o real, que eleva a dívida de US$ 135 bilhões da Petrobras. Também pela intensificação do noticiário negativo para a companhia relacionado às denúncias de corrupção e por causa da queda dos preços do petróleo.

 

Em risco

Pelos cálculos do Goldman Sachs quase US$ 1 trilhão em projetos no setor estão em risco por causa do recuo da cotação do petróleo, segundo reportagem do jornal britânico Financial Times. O banco Morgan Stanley não descarta a possibilidade de os preços flertarem com o patamar de US$ 40, o que poderia inviabilizar novos projetos de extração em países como Estados Unidos, Canadá e Brasil. Ontem, o preço do petróleo estimado para janeiro foi negociado a US$ 55,91 o barril do petróleo WTI, cotado em Nova York, e o Brent, de Londres, para o mesmo mês foi avaliado em US$ 61,06.

As empresas do setor estão cortando custos, renegociando dívidas, reduzindo investimentos e até diminuindo seus quadros. No Brasil, a Petrobras diz que está tomando medidas para manter o caixa sem ter de recorrer a empréstimos. A empresa tem R$ 30 bilhões em dívidas vencendo em 2015 e um plano de investimentos de R$ 100 bilhões. Seu caixa em setembro era de R$ 62 bilhões. A Petrobras precisa publicar o balanço anual até 30 de junho, que dependerá do resultado das investigações internas que estão sendo feitas. A auditoria só dará seu aval após essa apuração.

Se não publicar o balanço, terá de pagar antecipadamente US$ 50 bilhões em dívidas, além das que já venceriam em 2015. O HSBC estima que a empresa ficará sem caixa no quarto trimestre de 2015. Colaboraram line Bronzati e Altamiro Silva Júnior, com Dow Jones Newswires

 

Valor do título da dívida da Petrobras despenca

A cotação dos títulos da dívida da Petrobras emitidos no exterior está em forte queda, em um sinal do aumento da percepção de risco em relação à empresa. Hoje, os bônus da Petrobras são cotados a preços equivalentes aos de empresas com maior percepção de risco, os chamados junk bonds. Ou seja, como se a empresa não tivesse mais a classificação de risco de grau de investimento, considerada segura pelo mercado, embora esta ainda seja a nota que ainda a empresa possui segundo as agências internacionais de rating.

Investidores procuram se desfazer dos bônus da Petrobras, depois da divulgação, na sexta-feira, 12, de informações complementares sobre a situação financeira da estatal. Na sexta-feira, a Petrobras adiou, pela segunda vez, as demonstrações contábeis do terceiro trimestre, em meio às investigações sobre corrupção, mas adiantou alguns dados aos investidores.

As informações veiculadas na sexta-feira mostram que a Petrobras obteve um prazo maior com credores para que apresente seu balanço sem revisão do auditor. Com essa medida, a empresa evita que donos dos títulos da dívida exerçam uma cláusula do contrato que a obrigaria a acelerar o pagamento de suas dívidas, caso não publicasse o balanço auditado. Isso mostra a preocupação - e o risco - da empresa em relação à possibilidade de ter de adiantar o pagamento das dívidas. A queda do preço do petróleo também contribuiu para pressionar os bônus da estatal.

De acordo com fontes que operam no mercado de dívida, o bônus da Petrobras que vence em 2024 registrou queda de aproximadamente de 4,2%, saindo de 95% do valor de face na sexta-feira para 91% ontem. Nesse preço, o retorno do papel está em 7,6%, o mais alto desde que foi lançado este ano, enquanto o spread sobre o Treasury está em 545 pontos-base (5,45 pontos porcentuais). Na sexta-feira, o spread estava em torno de 495 pontos-base. Quanto maior o retorno, maior a percepção de risco.
"A máxima de hoje é a mínima de amanhã", brincou um operador ao falar da cotação das ações da Petrobras.

Dúvidas

Existem muitas dúvidas sobre o acerto. A Petrobras reapresentou na sexta-feira, por exigência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o formulário de referência de 2014, em sua terceira versão, com informações complementares sobre cláusulas contratuais (covenants). O documento informa que um aditivo contratual "aprovado e em execução" confere à Petrobras o prazo de até 120 dias após o término do trimestre para divulgar o balanço trimestral sem revisão de auditor. A estatal teria, dessa forma, até o dia 28 de janeiro para publicar o balanço.

O documento não deixa claro, contudo, quais mudanças envolvem a atualização. O documento informa que houve uma mudança na "obrigação para apresentação de balanço sem revisão do auditor", de forma a ampliar o prazo para a divulgação do material sem revisão pelo auditor. As cláusulas contratuais estão vinculadas a financiamentos no valor de US$ 7 bilhões. Colaboraram André Magnabosco, Mariana Durão e Vinícius Neder. 


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