
Noventa reais a mais por mês. O que dá para fazer com esse valor? “Nada, uai. Se meu gás acabar, nem outro vou conseguir comprar. Nada das minhas contas é menos do que R$ 90”, responde o ajudante de obra Jaime Roberto, de 42 anos. A reação de Jaime é a mesma entre trabalhadores que recebem o salário mínimo ao saberem do reajuste previsto para 2023.
Pelo quarto ano consecutivo, o salário-base no país não terá ganho real – ou seja, reajuste acima da inflação. O projeto de Lei Orçamentária enviado ao Congresso no último dia de agosto estabelece a remuneração em R$ 1.302, uma recomposição de 7,42% referente ao Índice Nacional de Preço ao Consumidor (INPC). Enquanto isso, o preço médio da cesta básica em Belo Horizonte ficou 13,37% mais cara nos últimos 12 meses e 5,46% no ano. E ela não é a única necessidade básica com aumentos galopantes em 2022.
Jaime Roberto não gostou de saber do pequeno reajuste. Para ele, o governo federal deveria propor um aumento real. “Tá osso! A gente rala, rala e rala, e só vê o dinheiro indo embora. Tem que aumentar o salário mínimo de verdade para ajudar a gente”, diz.
Bico
Pai de dois filhos, Jaime precisa fazer um “bico” descarregando caminhões no supermercado ao lado de casa, na região Leste de Belo Horizonte, para complementar a renda. Situação que atinge 45% dos brasileiros, que precisam recorrer à renda extra para conseguir manter a família.
De acordo com o IBGE, mais de 60 milhões de brasileiros recebem até dois salários mínimos, o que corresponde a 70% da população ocupada. Quando se analisa o quadro dos aposentados, 25 milhões – dois terços dos beneficiários – também têm como renda os R$ 1.212 pagos atualmente.
A aposentada Maria do Carmo Fonseca, de 73 anos, diz que não sabe mais como tentar esticar a aposentadoria. “Já reduzi na alimentação – praticamente não como carne mais –, quase não saio de casa e fico vigilante ao gasto de energia. Tenho até lavado mais roupas na mão, evitando usar a máquina”, conta.
Nada fácil
E vai continuar difícil”, diz a economista Mafalda Valente. Segundo ela, o brasileiro segue dando o “jeitinho”, com trabalho extra em casa, fazendo doces, bolos, marmitas, para agregar à renda. “Para, quando der, mudar de emprego e conseguir uma remuneração melhor”, diz a professora das Faculdades Promove.
Mafalda afirma que a esperança é a de que o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) previsto para 2023, de 2,5%, melhore a geração de empregos. Esse crescimento real de produção, destaca a economista, é uma luz no fim do túnel. “Se continuar do jeito que está hoje, há tendência de o trabalhador começar a respirar mais aliviado em 2023”, acredita.
“Mas a gente sabe que o impacto no bolso do consumidor demora”, ressalta Mafalda. A situação beira o desespero, com o trabalhador tendo que escolher que conta paga no mês. “Não é mais questão de reduzir consumo, cortar gastos, é de escolher o que pagar”, lamenta a professora.
Ideal
Segundo os cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo necessário para o custo de vida da população brasileira seria de R$ 6.298,91 em agosto deste ano. Ou seja, 383,79% maior do que o governo federal propôs no Orçamento da União para 2023.
Para efeito de comparação, agosto fechou com a cesta básica custando R$ 638,19 em Belo Horizonte, uma queda de 2,13% em relação ao mês anterior, ainda de acordo com o Dieese. No entanto, no ano, a alta é de 5,46%.
O preço corresponde a 56,93% do salário mínimo atual (R$ 1.212). Com base no salário, o tempo médio para o trabalhador belo-horizontino conseguir comprar a cesta básica foi de 115 horas e 50 minutos.