
A coleção outono-inverno mal chegou às vitrines e lojistas já anunciam promoções. É o chamariz para atrair o consumidor, que espia, olha, mas vai embora sem comprar nada. Com as lojas vazias e vendedores à espera do freguês que raramente entra, o setor elimina custos como pode e já corta pessoal.
O cenário visto por quem anda pela Savassi e outros polos de compras aparece nos cálculos dos analistas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa divulgada ontem mostra que as vendas no comércio varejista despencaram 3,1% no país em fevereiro, na comparação com igual mês de 2014. É o pior resultado desde agosto de 2003. Em Minas, o tombo foi ainda mais alto. No Estado, o varejo registrou queda de 5,2% na mesma base de comparação, índice que desde março de 2003 não era tão ruim. Ante janeiro, o recuo nas vendas foi de 1,1%. Já no acumulado em 12 meses, o saldo ainda é positivo (1,1%).
“Em Minas, todos os setores analisados fecharam no vermelho, do combustível ao supermercado, de eletrodomésticos a roupas e calçados. E isso é reflexo do encolhimento da renda da população. O consumidor está mais cauteloso. Posterga a compra do que não for prioridade máxima”, avalia a analista do IBGE em Belo Horizonte Juliana Dias Alves.
Cenário econômico
Para o economista da Federação do Comércio de Minas Gerais (Fecomércio-MG), Guilherme Almeida, o fraco movimento nas lojas é reflexo do ambiente econômico totalmente desfavorável ao bolso do brasileiro.
Entre os ingredientes amargos, ele cita a inflação – que em março atingiu 8,13% no acumulado em 12 meses–, muito acima do teto estipulado pelo governo federal (6,5%), e o crescimento da taxa de desemprego, que subiu para 7,4%.
“Quem mais sai prejudicado é o poder de compra do trabalhador. Então, não resta ao comerciante outra coisa a não ser inovar, captar clientes com promoções, buscar se destacar, usar tecnologias para atrair o consumidor e oferecer bons preços. Também é fundamental estar atento aos custos do negócio”, diz.
Com o aperto no orçamento, o cliente até fica balançado diante de uma vitrine chamativa, que promete “preços imperdíveis”. Mas nem sempre morde a isca. Apaixonadas por calçados, as amigas Cleide Corrêa e Jaqueline Gabriele ficaram fascinadas com a oferta de sapatos e sapatilhas da coleção de Inverno 2015. “Normalmente, os lançamentos chegav
A aposentada Solange Quintão diz que nunca foi muito consumista. Prefere roupas atemporais, que fogem ao modismo. E se ela já pensava duas vezes antes de passar o cartão de crédito, agora analisa três, quatro. “Mais do que a inflação, o que me preocupa é o desemprego, principalmente entre os jovens”, diz.
A dona de casa Berenice Carvalho conta que um dos passeios prediletos é bater perna na Savassi. “Mas com as coisas como estão, só mesmo pra olhar e distrair”, brinca.
Insegurança em realação à economia esvazia lojas
A cautela do consumidor, que protege o bolso mas esvazia lojas, também aparece em levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH). Segundo pesquisa de fevereiro, o comércio varejista da capital fechou em queda de 4,67% em relação ao mesmo mês de 2014. É o pior índice desde 2007.
“Além da economia fraca, estamos diante de casos de corrupção nunca vistos antes neste país e um sério problema político, já que presidente e Congresso não se entendem. O resultado é uma crise de confiança, tanto por parte dos empresários quanto pelo lado do consumidor”, diz o presidente da CDL-BH, Bruno Falci.
Segundo ele, com o aumento das tarifas de luz e água, e escassez de crédito, o que sobra para o trabalhador vai para o básico. E o supérfluo fica para o futuro.
Para atravessar a crise, Falci diz que lojistas terão que apertar o cinto e fazer revisão dos gastos, o que passa por demissões.
“Quando a empresa não fatura o suficiente, há desdobramentos. Tanto que já houve cortes, embora pontuais”, afirma.