
No rastro das nove altas consecutivas da taxa básica de juros (Selic) e da queda da demanda motivada pela desconfiança dos consumidores, que colocaram o pé no freio das compras, o nível de emprego na indústria mineira recuou pelo 12º mês consecutivo em maio. A queda, na comparação com igual mês de 2013, foi de 2,1%, puxada por segmentos ligados ao consumo, como automotivo e de calçados e couro, além de máquinas e aparelhos elétricos, conforme divulgou nessa sexta-feira (11) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A indústria de calçados e couro, intensiva em mão de obra, contribuiu com -0,73 ponto percentual, ou um terço do índice total. Na avaliação do vice-presidente do Sindicato Intermunicipal da Indústria de Calçados de Nova Serrana (Sindinova), Ronaldo Lacerda, há cerca de 3 anos o setor amarga fechamento de postos de trabalho na cidade, polo calçadista com mais de 400 indústrias. O motivo, de acordo com ele, é a concorrência desleal dos produtos asiáticos.
“O custo de produção deles é menor e a mão de obra é mais abundante. Por isso, grandes marcas internacionais produzem nos países da Ásia e trazem os produtos para vender aqui. O preço é um pouco mais alto do que o nosso, mas as marcas têm status, e os nossos produtos ficam em segundo plano”, explica.
Além da concorrência dos importados, as altas da Selic esfriaram a economia e complicaram o cenário. Lacerda é proprietário da Lynd Calçados e, devido à queda da demanda e da produção, a empresa acaba de reduzir o quadro de funcionários em 15%, passando de 300 empregados para 260. E, no final do ano, ele já prevê férias coletivas.
O segmento de Fabricação de Meios de Transporte respondeu por quase um quarto do resultado de -2,1%, contribuindo com -0,49 ponto percentual. Já o setor de máquinas e aparelhos elétricos teve um recuo de -0,53 ponto percentual, também quase um quarto do índice.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, Igarapé e São Joaquim de Bicas, João Alves, contabiliza um aumento de demissões por parte das empresas. Segundo ele, somente a Fiat dispensou 1.064 empregados em 2014. “Fazemos pelo menos 60 homologações da Fiat por semana. Porém, algumas são a pedido dos funcionários”, afirma.
De acordo com o presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Fernandes, a falta de confiança do consumidor é fator determinante na queda do emprego industrial de Minas Gerais.
“Um cenário de incertezas é o pior que poderíamos ter quando se trata de economia. A Selic está alta e o consumidor não tem acesso ao crédito. Ou, se tem acesso, está inseguro. Como consequência, as vendas diminuem, a demanda se reduz e os empregos são cortados”, explica.
O economista coordenador de Indústria do IBGE, Fernando Abritta, afirma que, com taxa básica de juros em alta e produção industrial em queda, a tendência é a de que não haja recuperação no curto prazo. “O emprego industrial acompanha a produção, que não sinaliza recuperação em breve”, diz.
Empresa planeja férias coletivas em pleno segundo semestre
O recuo da demanda tem levado as empresas a programarem mudanças no cronograma de produção, justamente no segundo semestre, quando é tradicional que haja um aquecimento da atividade. A fabricante de dispositivos elétricos Clamper, por exemplo, localizada em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, estuda dar férias coletivas para parte dos 170 funcionários em agosto e setembro.
De acordo com o presidente da Clamper, Ailton Ricaldoni, a demanda da indústria diminuiu como reflexo da redução dos investimentos dos setores de energia, mineração e automotivo, principais clientes da empresa.
Pessimismo
E os sinais emitidos pelo mercado de trabalho são de geração de vagas menor nos próximos meses, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). Em junho, o Indicador Coincidente de Desemprego (ICD) subiu 0,3%, enquanto o Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp) recuou 4,5%, para o menor nível desde maio de 2009.
Os resultados, divulgados nessa sexta-feira (11) pela FGV, traduzem a menor geração de vagas, principalmente nas regiões metropolitanas, foco da desaceleração. O dado ainda retrata o pessimismo entre empresários, que têm desistido de reter mão de obra diante da falta de sinais de melhora na atividade.
“O maior ajuste no emprego será no ano que vem. Neste ano, a taxa de desemprego não deve aumentar tanto”, disse o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, Fernando de Holanda Barbosa Filho.
Em 2015, o quadro será de mudanças, com aumento no número de pessoas desempregadas. “Acho difícil controlar a inflação e fazer tudo o que é preciso sem gerar recessão no mercado de trabalho”, afirmou o economista.
“Desde abril de 2013, esperamos piora no mercado de trabalho (segundo dados do ICD). Mas o desemprego não aumenta porque a População Economicamente Ativa está caindo”, comentou.