Economia seca em Furnas

Tatiana Moraes - Enviada especial - Hoje em Dia
Publicado em 16/03/2014 às 08:33.Atualizado em 20/11/2021 às 16:39.
 (Samuel Costa/Hoje em Dia)
(Samuel Costa/Hoje em Dia)

DE CAPITÓLIO, FORMIGA E PIMENTA – A faixa de terra que separa a casinha onde Osorino Danisete Silva mora durante 15 dias a cada dois meses, em Capitólio, no Centro-Oeste mineiro, e os tanques dos peixes que ele cria está maior a cada dia. Sem chuvas, o lago formado pelo represamento do Rio Grande para abastecer a usina de Furnas foi reduzido drasticamente, indicando que o cenário caminha para aquele de 2001, quando as economias dos 34 municípios que cercam a represa, baseadas no turismo, praticamente secaram. Sem água, as belas paisagens deram lugar ao prejuízo. 

Há até pouco tempo, a faixa que separava a casa do rio era de apenas 15 metros. Hoje, supera os 100 metros. Seu Osorino ainda consegue manter os alevinos (filhotes de peixes) debaixo d’água. Para isso, quase que diariamente empurra as cerca de 70 gaiolas, que medem três metros quadrados, para mais fundo no lago. Nos tanques, estão em fase de crescimento cerca de 50 mil peixes.
 
“Vamos empurrar as gaiolas até onde der. Mas estamos com medo de perder tudo. O risco é grande”, afirma. A entrevista é concedida na terra batida que há alguns meses servia de fundo para o lago. O produtor tem três sócios. Todos os dias eles abatem, embalam, congelam e vendem cerca de 300 quilos de traíra e pintado para os restaurantes da região sob a marca Casa do Peixe. 
 
“Nosso negócio começou há seis anos. O nível do lago nunca esteve tão baixo nesta época, que é de cheia”, afirma. 
 
Níveis
 
Na última terça-feira, o nível da represa de Furnas estava em 31,69%. Dois dias depois, quinta-feira, já tinha caído para 30,93%. O recuo segue na contramão do previsto para esta época do ano. Normalmente, entre outubro e abril as chuvas são abundantes, promovendo a cheia das bacias e favorecendo o sistema elétrico nacional, baseado em hidrelétricas. Devido à abundância de água no Brasil, 65% da energia brasileira é gerada por fontes hidráulicas, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
 
Na avaliação do ex-conselheiro administrativo de Furnas Centrais Elétricas e diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético (Ilumina), Roberto D’araújo, dentro da estratégia do governo Federal de segurar o preço da energia, adotada desde o ano passado, foi necessário atrasar o acionamento das térmicas, que são capazes de abastecer 20% do consumo nacional.
 
A confiança nas chuvas foi demasiada. “Agora, pagamos o preço. Uma campanha de redução do consumo é necessária e urgente. Não é só a falta de chuvas que agrava o problema. O consumo excessivo também”, afirma D’araújo.
 
O diretor do Ilumina afirma que o crescimento do consumo em 2012 e a demora no acionamento das térmicas, cujo combustível é caro, empurrou o problema para a frente. Além disso, ainda de acordo com ele, se a questão não for definitivamente resolvida, ela ficará novamente para o ano seguinte. 
"Enquanto não houver projetos geradores suficientes em operação é necessário ligar as térmicas enquanto os reservatórios ainda estiverem em nível adequado. Confiar demais nas chuvas é irresponsabilidade”, diz.
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