Estudo põe entre os 5% de maior renda quem recebe a partir de R$ 4.800 mensais

Raul Mariano - Hoje em Dia
Publicado em 03/04/2015 às 06:55.Atualizado em 16/11/2021 às 23:29.
 (Wesley Rodrigues/Hoje em Dia)
(Wesley Rodrigues/Hoje em Dia)
Ficar tecnicamente rico pode ser uma missão mais fácil do que muita gente imagina. Basta possuir renda anual mínima de R$ 57,6 mil – ou R$ 4,8 mil por mês – para integrar o seleto grupo dos 5% mais abonados do país. 
 
Pelo menos é o que aponta o estudo “O topo da distribuição de renda no Brasil” realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) com base nas declarações de Imposto de Renda de pessoa física entre os anos de 2006 e 2012.
 
O levantamento compara dados da Receita Federal com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e o Censo Demográfico e analisa a distribuição de renda tendo como referência o topo da pirâmide. Dessa forma, pessoas com renda anual mínima de R$ 203 mil, em 2012, já pertenciam ao grupo do 1% mais rico do Brasil. Quem tivesse renda anual mínima de R$ 871,7 mil já estaria no restrito grupo do 0,1% mais abastado. 
 
No período analisado pelo estudo, a parcela 0,1% mais rica recebeu quase 11% da renda total, o equivalente a uma renda média quase 110 vezes maior do que a média nacional. O 1% mais rico, incluindo esse 0,1%, ficou com 25%, e os 5% mais ricos receberam 44%, quase a metade da renda total.
 
Para trabalhadores que ao longo da carreira conseguiram melhorar a renda, a constatação soa como brincadeira. É o caso de José Carlos Cardoso, o Zé Pretinho, que depois de trabalhar como garçom e auxiliar de cozinha por mais de 30 anos em dezenas de estabelecimentos de Belo Horizonte, inaugurou seu próprio bar no bairro Serra, região Centro-Sul da capital.
 
“Acho muito estranho ser classificado como rico. Com a renda de R$ 4,8 mil, o sujeito não consegue sequer financiar o próprio apartamento. Se com esse valor as pessoas fossem ricas de verdade, não teríamos favelas”, comenta.
 
Na opinião da enfermeira Zaira Basilato, com o efeito da corrosão da inflação sobre a renda, é difícil se aceitar dentro do grupo dos 5% mais ricos do país. 
 
“Se considerarmos que a renda de R$ 4,8 mil é praticamente 10% do valor de um carro popular, não podemos dizer que essas pessoas são ricas. Isso só pode indicar que o padrão de renda da grande maioria é muito baixo”, diz.
 
Custo de vida
 
Um dos pontos de questionamento do estudo diz respeito à interpretação sobre o que, efetivamente, é ser rico no Brasil. 
 
O consultor financeiro e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Ewerson Moraes esclarece que o levantamento deve ser entendido dentro do universo proposto pelos pesquisadores, que desconsideram variáveis como o tempo de detenção da renda, custo de vida atual e o patrimônio das pessoas. 
 
“Vincular renda à riqueza é perigoso porque pode gerar distorções. Uma pessoa pode ter, por exemplo, 30 apartamentos e nenhum estar alugado. Isso significa que há patrimônio, mas nenhuma renda. Nos últimos anos podemos perceber uma melhoria de renda no país, mas o poder de compra das pessoas é algo a ser discutido”, analisa.
 
Concentração de renda nos países vizinhos é menor
 
O recorte utilizado pelo estudo ainda permitiu identificar a tendência de desigualdade inclusive entre os mais ricos. De acordo com os números apurados no período de 2006 a 2012, o grupo do 0,1% mais abastado concentrou 43% da renda total do 1% mais rico e 25% do total dos 5% mais ricos. 
 
Na prática, isso demonstrou que, em 2012, o grupo de aproximadamente 140 mil brasileiros equivalente ao milésimo mais rico alcançou uma renda média sete vezes maior do que a do grupo subsequente.
 
Dados do estudo apontaram, ainda, que em países vizinhos a concentração de renda no topo da pirâmide é menor. Na Colômbia, por exemplo, o 1% mais rico possui renda equivalente a 20% do restante da população. No Brasil, o grupo analisado detêm 56% da renda do restante.
 
Na avaliação do professor de Economia e Negócios do Ibmec Paulo Pacheco, a desigualdade faz parte do sistema econômico vigente e tende a permanecer existindo mesmo entre grupos pequenos que possuem alta renda.
 
“A desigualdade não deve ser vista como algo totalmente ruim porque nasceu com a indústria e o comércio, na era medieval, e permitiu ao homem sair da sua condição natural de vida que é a pobreza”, diz.
 
Estudo põe entre os 5% de maior renda quem recebe a partir de R$ 4.800 mensais
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