
O recuo nos preços das commodities e a retração da demanda internacional por insumos básicos e matérias-primas pode implicar na quarta queda anual consecutiva do saldo da balança comercial mineira, em 2015, seguindo o que acontece também no país. Desde 2012 o enfraquecimento das vendas externas do Estado vem acarretando resultados a cada ano mais magros na diferença entre exportações e importações. A deterioração do ambiente econômico global deverá potencializar essa tendência.
Embora setores como o de carnes, principalmente, vislumbrem um cenário mais favorável, e mercados novos possam surgir, a pauta de exportações do Estado ainda é muito concentrada em produtos como minérios, ouro e celulose, todos com cotação internacional que sofre com o arrefecimento da demanda.
“Com a China sinalizando um crescimento mais discreto e a Europa ainda quebrada, não há muita saída. O mercado internacional pouco demandante vai manter a trajetória de preços em queda, sobretudo para o minério, onde há aumento de oferta não apenas pelo Brasil, mas por outros grandes produtores”, diz o professor do MBA em gestão empresarial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Pedro Leão Bispo.
Este ano, até novembro, a China recebeu 30% de tudo o que Minas Gerais exportou. Dessa fatia, 83% são minério de ferro, o principal produto exportado pelo Estado, com representatividade de 40% sobre o total. Por isso, um recuo nas taxas de crescimento da China afeta diretamente a balança comercial mineira. O gigante asiático, por ser o maior comprador de minério do mundo, também tem poder sobre os preços, e com a redução das compras aliada aos altos estoques daquele país, a aposta é a manutenção dos preços do minério de ferro em curva descendente.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o preço do minério de ferro em novembro deste ano está 37,5% menor na comparação com igual mês de 2013. Nessa mesma base de comparação, o preço da soja caiu 14% e o da celulose, 13%. “O desafio que se coloca para Minas Gerais além da diversificação da pauta de exportações, é a diversificação dos destinos dos nossos produtos. Não podemos mais negligenciar a América do Sul”, diz o consultor em negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Alexandre Brito.
O cenário para o Brasil não é muito diferente, apesar de a tendência de saldos menores da balança já ter atingido o negativo em novembro, o que fez o governo Federal admitir que em 2014 haverá déficit. Assim como em Minas Gerais, a fragilidade está do lado da exportação.
Perspectiva é positiva para as indústrias de alimentos
A indústria de alimentos se descola das demais, com indicadores positivos e tendência de aumentar sua participação nas exportações mineiras e nacional, tanto pela perda de valor de outros segmentos como pela sua própria valorização.
Especialmente no setor de carnes, a perspectiva para 2015 é a de seguir com a abertura de novos mercados e de aumento da produção interna. A valorização do dólar, oscilando em torno dos R$ 2,50, também favorece a pecuária de corte, concentrada no Triângulo Mineiro, Zona da Mata e Norte de Minas.
No ano passado, o setor de alimentos e bebidas representou nos 11 primeiros meses do ano 15,35% do total exportado por Minas Gerais, com US$ 4,7 bilhões em divisas. Este ano, com US$ 5,2 bilhões de receitas de exportação, o setor passou a responder por 19,3% de tudo que o Estado embarca.
“Além de novos acordos comerciais, que abrem importantes mercados, as barreiras para produtos de outros países também são janelas importantes, como o exemplo dos Estados Unidos, que deixou de embarcar carne para a Rússia e abriu brecha para o Brasil, que aproveitou a oportunidade”, disse a coordenadora da assessoria técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Aline Veloso.
Os principais destinos da carne bovina são China, Hong Kong e Venezuela, e dos suínos, África do Sul, México e Cuba. A carne de aves é exportada para China, Japão e Arábia Saudita. “Os países compradores da carne suína estão em plena ampliação da demanda e a quebra de importantes barreiras sanitárias da Europa tem potencial para expandir significativamente esse mercado para o país”, disse Aline Veloso.
Ator importante
O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Pedro Leão Bispo, observa que apesar das adversidades da conjuntura atual, o Brasil é visto no mundo como um ator importante no comércio internacional, o que sempre gera oportunidades.
“A exportação de carne bovina e de frango se aproveitam desse potencial que tem o país de desbravar novos mercados. Em outros setores, o empresário está sozinho, não tem o apoio do governo na busca de acordos internacionais, e assim o potencial é reduzido”, disse.
Impacto do câmbio seria limitado
A valorização do dólar frente ao real terá impacto limitado nas exportações brasileiras, afirmam especialistas. Embora torne mais rentável o embarque de produtos nacionais, a possibilidade de que o governo venha a permitir a valorização da moeda estrangeira, sinalizada pelo presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, é vista com descrença.
Na coletiva de imprensa que confirmou a permanência dele no BC, Tombini afirmou que o governo não ampliará o programa de swaps cambiais.
“O Tombini não tem espaço para fazer muita coisa, está amarrado. Não acredito que o BC deixará o dólar se valorizar porque está claro que a preocupação maior é com a inflação. E mesmo que permita, mais importante que o câmbio, é a demanda (internacional por commodities), o cenário é ruim”, disse Alexandre Brito, consultor da Fiemg.
Pedro Leão Bispo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), também é descrente quanto à possibilidade de o governo Federal usar o dólar como ferramenta para melhorar a situação deficitária da balança comercial do país.
“O que o Tombini disse sobre o swap não é uma história para se confiar. O governo disse que ia pensar no crescimento do país e poucos dias depois elevou a Selic em 0,5 pontos percentuais, ou seja, fez o contrário do que disse. E favorecer a valorização do dólar com o mundo cheio de estoques de produtos não vai gerar grandes benefícios”, afirmou.