IA ganha espaço nas cooperativas mineiras e acelera transformação digital; tema é destaque em evento
Especialistas em inovação e tecnologia reunidos no WCM 2026, em BH, destacam novas aplicações da Inteligência Artificial e preparação das novas gerações; filósofo Mario Sergio Cortella traz reflexão sobre ética e interesse coletivo

Quase seis em cada dez cooperativas brasileiras (59,7%) já contrataram ou desenvolveram soluções de inteligência artificial (IA), segundo dados da Pesquisa de Inovação do Cooperativismo, realizada pelo Sistema OCB, entidade que representa o cooperativismo no Brasil. A tecnologia vem ganhando espaço em diferentes atividades, como atendimento aos cooperados, análise de dados, gestão de estoques e automação de processos. Em Minas, o movimento é acompanhado por investimentos em ferramentas digitais e na qualificação de profissionais e lideranças para incorporar a IA à rotina das cooperativas.
O avanço da tecnologia e seus impactos sobre os negócios estiveram entre os principais temas do World Coop Management (WCM) 2026, maior evento de liderança e estratégia do setor cooperativo da América Latina, realizado em 19 e 20 de outubro, em Belo Horizonte.
União de competências
Para o empresário Pedro Superti, fundador da School of Vision e especialista em inteligência artificial aplicada aos negócios, o potencial transformador da IA vai além de agilizar tarefas já realizadas pelas pessoas. Está na capacidade de explorar novas possibilidades e desenvolver soluções que antes não eram possíveis.
Durante o WCM, ele apresentou exemplos de aplicações que vão desde drones capazes de monitorar pastagens e conduzir rebanhos até sistemas que analisam milhões de registros de vendas para otimizar estoques e ferramentas que antecipam problemas na distribuição de energia elétrica.
Mais do que automatizar processos, essas tecnologias ampliam a capacidade das organizações de prever riscos, identificar oportunidades e tomar decisões. “Você não pode pedir uma coisa que você não sabe que existe”, provocou Superti, ao destacar que a inovação depende também do repertório e da criatividade humana. “Fusão não é colocar a máquina no lugar do humano. É a máquina devolvendo o humano pra gente. Para a gente poder voltar a cuidar da família, estar presente nas relações, criar, imaginar e fazer as coisas que realmente fazem diferença”, afirmou.
Nesse processo, Superti considera que o primeiro passo é aproximar profissionais de diferentes gerações. “A primeira fusão não é com a tecnologia, a fusão é entre gerações”, disse. Segundo ele, quem construiu a carreira antes da popularização da internet acumulou conhecimentos práticos e experiência na resolução de problemas, enquanto os mais jovens cresceram habituados a buscar informações e utilizar ferramentas digitais. A combinação dessas competências pode ampliar a capacidade de inovação das equipes e favorecer o desenvolvimento de novas soluções.
Foco na coletividade
A integração entre gerações também esteve presente na palestra do filósofo Mario Sergio Cortella, que associou a capacidade de inovar à disposição para aprender, independentemente da idade. “Uma pessoa velha é aquela que acha que já está pronta, que não absorve mais aquilo que é necessário. Aquela que não se reinventa”, afirmou.
Ao discutir a ética na era das máquinas inteligentes, Cortella recorreu à expressão latina “cui bono?”, que significa “a quem interessa?”, para defender que os benefícios da inovação não sejam avaliados exclusivamente pelos interesses individuais, mas também por seus efeitos sobre a coletividade. “É bom para quem? É bom para mim. Mas isso significa que é bom ou é só bom para mim? Quem atua no cooperativismo sabe esse conceito”, ao reforçar o princípio cooperativista do interesse pela comunidade, que estabelece o compromisso das cooperativas com o desenvolvimento sustentável dos locais onde atuam.
Para Ronaldo Scucato, presidente do Sistema Ocemg, entidade que representa o cooperativismo em Minas Gerais e correalizadora do evento, levar essas discussões ao WCM é uma forma de preparar o cooperativismo para transformações que já estão alterando as relações de trabalho e os modelos de negócio.
“A inteligência artificial já faz parte da realidade das cooperativas e terá um papel cada vez maior na maneira como produzimos, atendemos e tomamos decisões. Trazer esse debate para um encontro de lideranças é fundamental para que possamos compreender as oportunidades, discutir os riscos e fazer escolhas conscientes. O cooperativismo é um modelo de negócio que tem como compromisso as pessoas e é esse princípio que deve orientar também a nossa relação com as novas tecnologias”, conclui.
* Com informações do Sistema Ocemg
Leia também:
