
Os índices de produção da indústria de transformação em Minas Gerais, nos últimos seis trimestres, tornaram o cenário de desindustri-alização no Estado ainda mais preocupante. Com exceção do período de crise em 2009, o setor atingiu, no primeiro trimestre deste ano, o nível mais baixo de produção dos últimos dez anos, segundo dados da Fundação João Pinheiro (FJP) e da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
A queda vem acompanhada da redução da participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Em 2012, o segmento correspondeu a 11,8% do PIB, índice menor do que o de 2002, quando a participação era de 15%.
Já na comparação com o primeiro trimestre de 2014, a indústria da transformação atingiu queda de 10,3% de janeiro a março de 2015, a primeira retração de dois dígitos desde de 2008. O agravante é que o contexto econômico atual não conta com indicadores de recuperação, como a existência de um enorme mercado consumidor, por exemplo. Para especialistas, o cenário é preocupante e pode sinalizar crise de longa duração.
Brasil
No âmbito nacional, os indicadores revelam um retrocesso ainda maior. De 2004 a 2012 a redução foi de 30%, sendo que no fim do período a indústria de transformação representou somente 13,3% do PIB, mesmo nível de participação do ano de 1955, conforme estudos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Dentre os motivos apontados por especialistas, a falta de políticas industriais claras, a grande penetração de produtos importados no mercado nacional e a incapacidade da indústria em acompanhar o crescimento econômico impulsionado pelo consumo foram os maiores responsáveis pelo encolhimento.
“O pico de participação da indústria no PIB nacional era de 30% há cerca de 15 anos. Em 2014, fechamos o ano com a participação de 11,5% do PIB. Ou seja, voltamos à dimensão da indústria do início da década de 1950”, explica o presidente do Conselho de Economia e Política Industrial da Fiemg, Lincoln Fernandes.
De acordo com ele, a desindustrialização é comum em economias de países desenvolvidos e, na maioria dos casos, é acompanhada pela expansão do setor de serviços. Nessas economias, explica, a renda per capita é maior do que US$ 8,5 mil e os cidadãos já satisfizeram necessidades com casa própria e automóvel.
“A nossa renda per capta está na faixa de 4 mil dólares. Isso acontece em um momento sem precedentes na história. Vivemos uma desindustrialização precoce”, analisa.
Setor de serviços ampliou a participação no PIB
Na contramão da indústria, os serviços aumentaram a participação no PIB de 68,7% em 2012 para 69,4% em 2013, a maior parcela alcançada pela atividade no PIB nacional desde 2000, de acordo com dados do IBGE.
Na avaliação do coordenador do MBA em Gestão de Serviços da Fundação Getúlio Vargas (FGV/IBS), Luis Carlos de Sá, as pequenas e médias empresas que impulsionam o PIB brasileiro já são, em sua maioria, do setor de serviços. No entanto, a desin-dustrialização evidente não é motivada pelo crescimento dos serviços, mas sim pela ausência de uma política industrial claramente definida.
Sá explica que a maior parte dos empregos e novos negócios são abertos na área de serviços porque a necessidade de capital e os problemas logísticos são muito menores. É um setor que possui dinamismo e foi muito incentivado nos últimos 10 anos, principalmente por causa da internet.
“Os serviços no Brasil ainda tendem a acrescer mais até atingir 80% do PIB nacional. Hoje, eles representam cerca de 67%. Em países desenvolvidos como os Estados Unidos, os serviços equivalem a 81% do PIB; no Japão e na Europa a mais de 70%”, analisa.
A retomada do crescimento econômico, no entanto, depende de investimentos em projetos de infraestrutura que beneficiem tanto a indústria quanto o setor de serviços.
Estudos da Fiesp com base em dados do IBGE projetam que, se conservadas as taxas de aumento da renda per capita das últimas duas décadas – cerca de 1,8% ao ano –, o Brasil levaria aproximadamente 40 anos para alcançar a renda média das grandes economias. “Existe espaço para que a indústria volte a crescer no país.Quando esse ritmo for retomado, os serviços também continuarão crescendo”, conclui Sá.
