
Fazer da Copa do Mundo uma grande vitrine para Minas Gerais e atrair a atenção – e os investimentos, principalmente – de empresários estrangeiros é a estratégia da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG) para alavancar o setor e contribuir para o desenvolvimento do Estado. Otimista, o presidente da entidade, Lázaro Luiz Gonzaga, apresenta, em entrevista ao Hoje em Dia, suas expectativas para este ano, que promete ser bastante agitado. Além de sediar um dos maiores eventos esportivos de todo o mundo, o país está convocado a ir às urnas em outubro. A movimentação de consumidores por aqui é vista como uma boa oportunidade de fazer Minas e o Brasil ainda mais conhecidos mundialmente, levando em conta que o comércio de serviços e turismo representa 60% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, é considerado um grande empregador e abriga o maior número de empresas brasileiras. Paralelamente à agenda de negócios deste ano, Gonzaga celebra a redução dos índices de inadimplência e de endividamento das famílias e aposta em uma mudança cultural de comportamento que deverá seguir como tendência.
Quais são as perspectivas para o comércio em 2014, um ano muito movimentado, em função da Copa do Mundo e das eleições no Brasil?
Eu nunca sou pessimista em relação ao Brasil, só lamento não poder ficar aqui mais uns 100 anos para acompanhar esse país, que tem um potencial muito grande. Em relação à economia, ela é muito complexa e muito variável. Acredito que haja componentes significativos vindo por aí. Já as campanhas eleitorais sempre acabam disponibilizando dinheiro no mercado e isso é natural, porque elas são dispendiosas. Elas também geram empregos a muitas pessoas com baixa qualificação profissional. É uma área que consegue absorver esse pessoal. Então, vejo neste ano boas possibilidades geradas por recursos circulando.
Como a Fecomércio MG está se preparando para receber os turistas e incrementar os negócios no Estado?
Na Copa do Mundo, nós estamos investindo muito, tanto a Federação como um todo quanto o Sesc (Serviço Social do Comércio), o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), individualmente, porque o evento é composto pelo pré, o durante e o pós. Estamos trabalhando para garantir uma boa imagem e despertar o interesse dos empresários em Minas Gerais. Já estivemos na África do Sul, verificando os prós e contras da Copa, com olhos voltados para oferecer um bom atendimento aqui. A Alemanha também nos colocou que, 20 anos após a Copa, ainda há reflexos econômicos positivos gerados pelo evento no país.
E quais são os aspectos negativos de sediar um dos maiores eventos esportivos mundiais?
De fato, vamos ter muitos dias nos quais a produção estará comprometida. Esse é o ponto de dúvida. Institucionalmente, eu vejo com muito otimismo, mas, a parte prática, da produção, me preocupa. Outra coisa com a qual nos preocupamos e fazemos um apelo aos brasileiros é que não usem a Copa do Mundo como instrumento político, de baderna, como aquela selvageria que nós vimos (no ano passado, durante a Copa das Confederações), porque seria um desastre para nós, um antipatriotismo. Mas, apesar de tudo, eu ainda acredito que, pela índole do brasileiro, vamos saber conduzir essa oportunidade de passar uma boa imagem.
Em quais setores é esperado um melhor desempenho nos próximos meses?
Com certeza, o turismo, que concentra 53 tipos de atividades econômicas diferentes, como hospedagem, transporte e alimentação, por exemplo. Vale ressaltar, também, que os preparativos para a Copa já geram uma movimentação intensa, sobretudo, pelo grande número de pessoas que virão para cá, uma vez que o Brasil está na moda lá fora. Há muita gente querendo investir aqui, não só aproveitando a Copa, mas prospectando negócios. Então, curiosamente, parece que o evento mexe com quase todos os setores da economia.
Belo Horizonte tem um apelo muito forte para o turismo de negócios. Ele também será favorecido com a vinda de estrangeiros para cá?
Não só de negócios, mas também para o turismo religioso e cultural. E é aí que entra outro fator muito positivo, que é o novo ponto de ligação de Belo Horizonte com o mundo: o desenvolvimento do Vetor Norte e o fortalecimento do entorno do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins. O projeto é de um investimento gigantesco, e até pretende eliminar o nome Confins, que não tem uma conotação muito positiva na nossa linguagem, é usado em expressões como ‘lá nos confins’. Então, Minas Gerais, além da localização geográfica favorável e do desenvolvimento econômico, tem mais esse ponto positivo. Trata-se de um conglomerado de empresas que vão se situar no entorno do aeroporto, formando o que nós chamamos de ‘aerotrópole’. Estamos em um momento muito bom.
Há novidades previstas para as entidades que compõem o sistema Fecomércio-MG, a fim de aproveitar essa boa fase?
Nessa administração (2010-2014), assumimos a gestão do Sebrae, um trabalho integrado que também está sendo muito positivo. Nele, já estamos trabalhando as Olimpíadas de 2016, que acontecerão no Rio de Janeiro. O Estado não tem estrutura, e isso já está comprovado tecnicamente, por meio de estudos, de atender a todas as demandas que surgirão durante o evento. Então, estamos capacitando profissionais que prestarão serviços de lavanderia, por exemplo, que já estão sendo estruturados na região da Zona da Mata mineira e em cidades do entorno. Isso vem acontecendo com dois anos de antecedência e eu acho que esse espírito otimista vai ter uma dimensão ainda maior na época. Já estamos reunindo empresários, capacitando, montando todo um processo. As Olimpíadas serão em 2016, mas as pessoas estão sendo orientadas agora para enxergar as oportunidades. Acredito que, dessa maneira, elas poderão, naturalmente, tirar proveito com a Copa do Mundo também.
Estudos da Fecomércio-MG apontaram um recuo nos níveis de inadimplência e endividamento das famílias no início deste ano. Apesar desse movimento, podemos dizer que o belo-horizontino, e o brasileiro, de maneira geral, ainda têm dificuldades para fazer um planejamento financeiro?
No processo cultural da (compra a) prestação, as pessoas não detalham muito o custo das compras, mas isso tem mudado. A própria imprensa tem batido nessa questão e mostrado o que é fazer uma compra à vista e a prazo. Também o advento da internet motivou muita gente que fica dentro de casa a pesquisar mais. Houve mudanças na maneira de comprar. Um detalhe: o Brasil está vivendo um momento muito positivo, porque, apesar da tendência de envelhecimento, o posicionamento da faixa etária do brasileiro, hoje, está muito favorável à produção.
E o comércio também se beneficia com essa mudança...
Sim. Um dado cultural muito importante: antigamente, quando uma pessoa ia se aproximando dos 40 anos, ela já entrava em depressão, porque sabia que ia perder o emprego e não conseguiria outro, porque era velha. Hoje, o mercado busca profissionais de 60, 70 anos e põe para trabalhar. A experiência está contando muito e eu acho isso um avanço social de proporções inestimáveis: a valorização do trabalho profissional, independentemente da idade. Isso está levando a Previdência a uma situação difícil, porque, antes, cerca de dois anos depois de se aposentar, a pessoa morria. Atualmente, ela vive mais 30 anos depois que se aposenta e acabou tornando-se outra fonte de consumo. É uma área que nós cuidamos muito também, no Sesc. É um viés de consumo muito grande, principalmente, na área do turismo, gerado pela incorporação de pessoas que antes ficavam dentro de casa, apenas consumindo remédios.
Mas, no ano passado, a alta de preços de alguns produtos levou o consumidor a dispensar itens supérfluos do carrinho de compras para priorizar a necessidade. Neste ano, não há risco de acontecer a mesma coisa?
No caso dos alimentos, por exemplo, existe uma sazonalidade normal no mercado. Apesar de haver áreas de irrigação nas lavouras, temos um fator climático que não é exclusivo do Brasil. Mas, aí, só fazendo amizade com São Pedro para saber no que vai dar. Por outro lado, existe, também, um processo cultural que é o desprezo da grife em função do produto mais barato. Então, o produto genérico, que começou na indústria farmacêutica, já chegou a outras áreas. Hoje, chegamos ao supermercado e percebemos que muitos têm uma marca própria, que nada mais é do que o produto genérico. E isso a população está aprendendo. No turismo, o Sesc mineiro tornou-se, recentemente, o mais novo membro da Organização Internacional de Turismo Social. Temos convênio com uma instituição semelhante em Portugal, assinamos recentemente com a Espanha e caminhamos para assinar com o Chile. A gente facilita as prestações das viagens e o acesso de mais pessoas ao serviço gera uma movimentação muito significativa na economia.
Que avaliação o senhor faz do cenário atual e das possibilidades para o comércio de bens, serviços e turismo no Estado?
Acredito que o mais importante que estamos buscando é que nós, brasileiros, pensemos grande. Acho que a oportunidade está aí, e esse estado de espírito tem uma influência muito grande, porque as pessoas, querendo ou não, são muito influenciáveis. Então, se falarmos ‘vamos investir, porque vai haver oportunidade’, as pessoas o fazem, mas, se vier um e puser medo, elas retraem e causam um grande impacto negativo. A capacidade de consumo está aí para provar isso. Foi só dar uma oportunidade à população que ela se integrou ao processo. Toda economia tem seus ciclos, eles não podem é ser muito acentuados; se houver demanda demais, temos inflação e problema de produção; se tiver de menos, também não é bom.