
Encardida de poeira do minério de ferro, Itabira é uma cidade aos pés de uma mina e de uma barragem de rejeitos, resultado de mais de 70 anos de exploração.
Os moradores relatam o receio de um vazamento na barragem. “Nunca aconteceu aqui, mas já aconteceu em outros lugares. Temos medo sim, até porque muitas crianças nadam na barragem”, diz a presidente da Associação dos Moradores do Bairro Bela Vista, Maria Aparecida Coelho de Souza. A bela vista que os moradores veem da janela, hoje, é uma barragem da Vale.
“Moro aqui há 27 anos, olhava da janela e via uma extensa área verde, com campo de futebol para as crianças e algumas áreas com criação de cavalos. A gente buscava água direto na nascente”, conta Elmira Maria Sena, moradora do bairro.
Aposentado pela Vale, onde trabalhava na manutenção da usina de beneficiamento de minério de ferro, João Batista Carlos reside na casa que faz divisa com a barragem de rejeitos. Deficiente auditivo em um dos ouvidos, ele responsabiliza seus tempos de operário, onde estava exposto a ruídos industriais, pela perda da audição. O galinheiro no quintal está vazio. “Alteraram um curso d’água, que agora passa quase dentro da minha casa e causa um imenso mau cheiro. Quando chove, a água de lama invade o galinheiro”, diz.
João é conhecido no bairro. Ficou famoso quando se iniciaram as obras de alteamento da barragem. “Ele se jogou na frente das máquinas”, conta Maria Aparecida.
Os moradores do Bela Vista pedem indenização para deixar suas casas. “A Vale chegou aqui, construiu a barragem, e meu imóvel desvalorizou. Minha qualidade de vida também caiu por causa do mau cheiro frequente e do esgoto, que vira e mexe estoura por causa do rejeito de minério”, diz.
Os moradores não conhecem tecnicamente como se produz o minério e suas aplicações, mas sabem como ninguém os impactos que a atividade causa. “Ninguém quer morar nesse bairro. Ninguém quer comprar minha casa”, reclama Elmira Sena.
A Vale afirma que o alteamento da Barragem no Bela Vista é discutida rotineiramente desde 2008 com as lideranças comunitárias do bairro e que desconhece qualquer impacto no sentido apontado de poluição de nascente ou estragos no esgotamento sanitário.
Sobre a poeira, sustenta que desde 2001 mantém uma Rede Automática de Monitoramento da Qualidade do Ar no município de Itabira e outras medidas que minimizam os seus efeitos, como a lavagem das ruas com caminhão-pipa.