
A insistente inflação em torno do teto da meta do Banco Central teve como reflexo uma revoada dos investidores do Tesouro Direto – que permite que pessoas físicas comprem títulos públicos do governo – para os papéis indexados à variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), as Notas do Tesouro Nacional (NTN). Com essa estratégia, os investidores têm garantido a preservação do valor do dinheiro diante do dragão, ao mesmo tempo em que recebem uma taxa de juros real pré-definida.
De acordo com o último balanço do Tesouro Nacional, as NTNs representaram 53,6% das vendas de títulos em maio. “É natural que isso aconteça nessa época, porque o investidor sempre quer ganhar mais. A tendência é de que as pessoas migrem para esses títulos para se protegerem do aumento dos preços e da desvalorização da moeda”, diz o analista de mercado e professor da Faculdade Novos Horizontes Paulo Vieira. E a aposta nas NTNs se revelou lucrativa, ao menos até agora. Conforme o Tesouro Direto, papéis com vencimento em agosto de 2020 acumularam rentabilidade de 8,21% nos cinco primeiros meses do ano.
Apesar da franca preferência dos investidores pelas NTNs, há analistas que também recomendam o aporte em títulos indexados à taxa básica de juros (Selic), as Letras Financeiras do Tesouro (LFT). Esses papéis acompanham a variação da Selic para cima ou para baixo, garantindo uma remuneração nos níveis praticados pelo mercado.
“A vantagem desse papel é que, se por acaso houver uma instabilidade maior, como uma crise, a Selic tende a subir mais. Esses títulos são os preferidos dos banqueiros e eu, particularmente, também ficaria com eles. Pelo menos, em boa parte. Não colocaria todo o dinheiro em títulos indexados à inflação”, afirma o professor de Finanças do Centro Universitário UNA, Leopoldo Grajeda.
Risco maior
Segundo Grajeda, os títulos prefixados, como as Letras do Tesouro Nacional (LTN) e as Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN-F), também ofertados pelo Tesouro Direto, são mais arriscados, porque pagam taxas de juros definidas no ato da compra, sem considerar oscilações do mercado. Com isso, o investidor pode ver seu rendimento descolar-se da média de mercado em caso de crise que force uma elevação brusca dos juros, ou na hipótese de uma escalada inflacionária.
Cuidado
Embora sejam considerados os investimentos mais seguros, por contarem com a garantia do governo Federal, os títulos públicos têm um inconveniente, na avaliação de Paulo Vieira: é o próprio investidor quem fica responsável por fazer sua carteira.
Programa tem 400 mil inscritos
O Tesouro Direto é um programa de venda de títulos públicos a pessoas físicas desenvolvido pelo Tesouro Nacional em parceria com a BM&FBovespa. Cerca de 400 mil pessoas já se cadastraram no programa.
Os papéis podem ser comprados diretamente, via internet, ou por meio de bancos e corretoras conveniados.
Os títulos públicos possuem a finalidade primordial de captar recursos para o financiamento da dívida pública .
Encargo menor viabiliza compra direta
Uma das vantagens de investir no Tesouro Direto são os encargos menores do que os dos fundos de investimentos mais populares. Eles ficam em até 0,8% ao ano, sendo 0,3% referente à taxa de custódia da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&F Bovespa) e, no máximo, 0,5% para as corretoras, responsáveis pela intermediação dos papéis.
“Outra grande vantagem é a possibilidade de aplicar a partir de R$ 100 ou, no caso de compras programadas, R$ 30. Além de as taxas serem as mesmas praticadas entre os bancos, ou seja, o investidor opera no mesmo nível dos grandes investidores”, afirma a professora de mercado de capitais da FGV/Faculdade IBS, Myrian Lund.
De acordo com ela, a escolha do tipo de título público deve ser feita, sobretudo, com base no propósito de utilização do dinheiro.
“Cada vez mais, o que a gente vem falando é que o investidor precisa se planejar. O que ele quer fazer? Usar no curto prazo para bancar as férias, em um ano? Ou daqui a dois ou três anos, para dar entrada em um apartamento, por exemplo? É para a aposentadoria? Respondidas essas perguntas, é que escolhemos o produto, porque o que é bom para um pode não ser para outro. Não existe o melhor tipo de investimento. Por isso, trabalhamos com planejamento financeiro, e não com o que o vizinho está comprando ou falando, mas de acordo com o que a pessoa precisa”, diz Myrian.