
Afetados pelo vai-e-vem da pandemia de Covid-19, especialmente do turismo corporativo – o tipo mais forte da capital mineira –, os hotéis de Belo Horizonte precisaram sair da caixa do modelo de hotelaria tradicional e buscar novas fontes de receita. A busca pela diversificação foi necessária porque o setor foi um dos mais castigados pela pandemia, com pelo menos 28 fechamentos de hotéis e cerca de 7.000 demissões em Belo Horizonte e na região metropolitana.
No Centro de Belo Horizonte desde 1934, o hotel Brasil Palace por exemplo fechou por três vezes na pandemia e chegou a ficar sem operar por quatro meses. Para manter as portas abertas, Ronise Cunha, responsável pela gestão atual, voltou a funcionar recebendo, pela primeira vez, mensalistas no local.
Apesar do lucro ser menor, a modalidade foi a opção para arcar com os custos fixos como aluguel, luz, água e internet. “São igual hóspedes normais, mas, para eles ficarem por 30 dias ou quanto eles quiserem, damos um desconto grande”, diz.
Segundo a administradora, enquanto uma diária é R$100, fechar um pacote de um mês sai por R$800, o que representa menos de R$30 por dia. O segredo está na redução de custos de operação e na cobrança de serviços extras. “Conseguimos diminuir a equipe porque tivemos muito corte de serviços e tudo agora é terceirizado. Se ele quer TV, precisa alugar à parte, assim como roupa de cama e lavanderia”, afirma Ronise.
Hoje, os mensalistas respondem entre 20% a 30% do faturamento, considerado o básico para não fechar. O principal perfil de clientes são homens entre 30 a 60 anos que vêm à capital para trabalhar na área central, mas também há pessoas que estão frequentando cursos e em tratamento de saúde.
Novas operações
Muito além de continuar funcionando, a rede MHB Hotelaria, que possui 9 hotéis em diferentes regiões de Belo Horizonte, explorou novas oportunidades e encontrou uma demanda atípica: a hospedagem de clientes que residem em Belo Horizonte. Rodrigo Avelino, diretor de operações do grupo, conta que a ideia veio depois que eles identificaram que o morador de BH queria utilizar um hotel na pandemia. “Em virtude de não poder viajar, muitos aproveitam para ficar em hotéis para relaxar numa piscina, sair da rotina e tomar um bom café da manhã. Investimos em marketing para atrair essa demanda”, diz.
A modalidade deu tão certo que, segundo Avelino, a taxa de ocupação no fim de semana chegou a 80%, enquanto antes da pandemia não passava de 25%. Hoje, em média, a ocupação entre sexta e domingo fica em torno de 60%, principalmente por casais e famílias, e representa cerca de 30% do faturamento mensal do grupo.
Não parou por aí. Percebendo a crescente produção de lives – e com a proibição de realizarem eventos –, a rede transformou três dos seus salões em estúdios, passando a receber gravações de podcasts, programas de TV, produção para Youtube e lives.
De acordo com Rodrigo, os estúdios recebem, pelo menos, duas gravações diárias por locação mensal ou horas e adicionou 5% ao faturamento. “Nós praticamente já recuperamos as perdas da pandemia e conseguimos recontratar todos os 150 funcionários dispensados na crise. Só não voltou quem não quis”, afirma.
Ocupação em BH
A pandemia de Covid-19 provocou em Belo Horizonte o fechamento de 28 hotéis, mas, de acordo com o Sindihbares (Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Belo Horizonte e Região Metropolitana), metade já conseguiu reabrir as portas, ainda que com altos e baixos em relação à ocupação. “Não tivemos lucro em janeiro e fevereiro, pois as chuvas intensas fizeram com que a taxa de ocupação caísse 45%”, afirma Paulo César Pedrosa, presidente do Sindihbares.
Em março, Pedrosa estima que a taxa de ocupação da capital já alcance entre 60% e 65%, especialmente devido à volta do turismo corporativo e esportivo. “A pandemia abriu os olhos do empresariado em todos os sentidos, apontando para melhorar atendimento e acomodações. Hotel é investimento o ano todo, não pode descuidar e, nessa volta, início de retomada, há rigor muito grande para receber hóspedes”, relata.