
As reações do dólar e da bolsa à possível queda da presidente Dilma Rousseff demonstram que o mercado vê com bons olhos a hipótese do impeachment. No entanto, especialistas alertam que uma troca da presidente e do primeiro escalão do governo dificilmente representaria melhora no quadro econômico do país.
Uma das principais razões apontadas é a necessidade de um ajuste fiscal que, mesmo com a saída de Dilma, continuaria sendo o grande desafio para uma transformação estrutural com retomada do crescimento.
Nesse contexto, cortar os gastos do governo seria uma das principais tarefas. Porém, devido à dificuldade de se realizar a mudança, economistas não acreditam que os resultados possam ser sentidos em curto prazo.
Para o cientista político Malco Camargos, as mudanças econômicas em caso de impeachment vão depender diretamente da capacidade de um novo grupo político de reorganizar as bases de apoio no congresso
“Quanto menos legítima for a construção desse novo governo, pior. Se for feita a toque de caixa, comandada por Eduardo Cunha, não há possibilidade de que a situação econômica do Brasil se resolva. A entidade mercado é acéfala, de curto prazo, irracional e autocentrada nos seus interesses. Portanto não é possível enxergar um cenário muito claro se baseando apenas em como o mercado se manifesta”, avalia.
“Enquanto a situação política continuar como está, a interpretação do mercado é de que não há perspectiva alguma”
Guilherme Leão - Economista da Fiemg
Impactos
O consenso entre os especialistas é que, com um impeachment, os juros do país iriam subir imediatamente como tentativa de combater a inflação que, hoje, está na casa dos dois dígitos. No entanto, o impacto político de medidas consideradas impopulares pode impedir que os novos governantes façam as mudanças que o governo atual não conseguiu fazer.
O professor de economia do Ibmec Paulo Pacheco explica que é pouco provável que, em caso de impedimento da presidente, um novo governo seja capaz de equacionar as contas públicas.
“O Brasil precisa de um governo menos gastador e o ajuste fiscal tem que levar isso em conta. O PMDB, que é o partido que assumiria o governo, teria que colocar as pessoas para fazerem essa mudança, mas o partido não tem esse perfil. A inflação precisa de juros maiores para ser contida, mas esse é um remédio muito dolorido”, analisa.
Para o economista da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Guilherme Leão a simples expectativa de que o governo possa sair da estagnação em decorrência do impeachment anima os investidores.
“Então, mesmo que haja uma taxa de juros mais alta, você começa a enxergar estratégias para viabilizar a atração de investimentos. O empresariado começa a ter uma preocupação com reforma e, com uma agenda propositiva, a economia toma outra direção”, analisa.