115 anos de história

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 19/10/2014 às 08:57.Atualizado em 18/11/2021 às 04:40.
 (Samuel Costa/Hoje Em Dia)
(Samuel Costa/Hoje Em Dia)
O “terceiro sinal” soa e os atores entram em cena. Mas, em Belo Horizonte, o simbolismo deste termo típico do teatro dá nome à exposição inédita que viaja por toda a história das artes cênicas na capital mineira. A diferença é que em “3º Sinal: Belo Horizonte em Cena” o público é quem entra no palco.
 
Isso é possível graças à cenografia da exposição em cartaz no Museu Histórico Abílio Barreto. Trata-se da “caixa cênica” criada pelo cenógrafo Alexandre Rousset. Ela tem quase tudo o que um palco traz. Cortina na entrada, a “boca de palco”, coxia, iluminação de cena. 
 
Pela primeira vez é reunido em um único espaço 115 anos da história das artes cênicas por aqui. A idade pode ser calculada a partir da inauguração do Teatro Soucasseaux, em 1899 – provavelmente, a primeira casa de espetáculos estruturada [TEXTO]da “nova capital”.
 
“Antes dele, há alguns registros sobre um galpão, próximo do adro da Igreja de Boa Viagem, onde eram realizadas encenações”, lembra a coordenadora de pesquisa da mostra Luana Maia Ferreira.
 
A curadora da exposição, Gloria Reis, diz que uma das características no perfil do teatro em Belo Horizonte é a formação de grupos. “Aqui, teatro é ofício coletivo”, resume. Gloria explica que o perfil com base na “união faz a força” é que fez com que o teatro por aqui resistisse, inclusive na ditadura.
 
Trupes e mais trupes
 
Luna Lunera, Galpão, Espanca!... Só para lembrar alguns dos grupos mais conhecidos da atualidade. Neles há outro ponto no qual Gloria se apoia para a caracterização da arte local: a “diversidade”.
 
“O desafio foi pensar como tratar desta diversidade com uma linguagem expositiva e cênica”, justifica a curadora, que é professora de História da Dança e do Teatro em graduações. Ela foi convidada pela Fundação Municipal de Cultura para montar a exposição. 
 
A mostra traz objetos de locais como o Theatro Municipal de Belo Horizonte, construído por meio da ampliação do Soucasseaux. Dele, há escarradeiras (imagine, tigelas somente para cuspir!) e um majestoso lustre, além dos detalhes do projeto arquitetônico erguido na esquina das ruas Goiás e Bahia, em 1906. 
 
Ainda em cena, ou melhor, em exposição, memórias de movimentos artísticos e de festivais, figurinos, áudios, cartazes e homenagem ao “elenco” desta história real: os atores de ontem e de hoje. 
 
 
A advogada Enisa Pereira Resende, de Ibiá:
>Advogada Enisa Pereira Resende, de Ibiá: "público deveria comparecer mais às peças" (Foto: Samuel Costa/Hoje em Dia)
 
Proteção do teatro de BH está em planejamento
 
O teatro de Belo Horizonte pode ser protegido como patrimônio imaterial. Inventário sobre a arte está em andamento e a expectativa é de que ainda neste ano o processo seja concluído.
 
“Fizemos o inventário do teatro, das suas diversas nuances, e o Conselho de Patrimônio, proximamente, irá, em uma reunião, fazer a proteção”, adianta o presidente da Fundação Municipal de Cultura, Leônidas Oliveira.
 
Ele afirma ainda que esta será a primeira de uma série de outros registros ainda em planejamento como por exemplo “da dança, do circo, dos ciganos, dos quilombos urbanos e das bandas de música”.
 
Oliveira explica que a proteção é um instrumento legal que garante o reconhecimento da importância da questão histórica, artística e cultural da cidade. Com os registros, prevê Oliveira, “as ações teatrais tornam-se prioridade nas políticas públicas que devem fomentar o seu desenvolvimento”. 
 
O registro é justificado pelas peculiaridades da arte na cidade e estas vão desde a história da construção das artes cênicas locais, passando pela dança e pelo teatro de bonecos. 
 
Oliveira reconhece que a profissionalização do teatro na capital veio acompanhada de maior qualificação e de uma crescente ocupação dos teatros e espaços públicos pelo fazer teatral. 
 
“A projeção dada à cidade pela existência de grupos como o Galpão e a consolidação do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (FIT) ao longo dos anos estimularam o teatro na cidade e também projetaram a cidade no circuito internacional de artes cênicas”, acredita. No âmbito local, inclui, a Campanha de Popularização do Teatro atrai uma diversidade enorme de grupos e de públicos.
 
E na prática?
 
Maior visibilidade, sim, mas também, mais dignidade para os trabalhadores da artes cênicas. Esta é uma das expectativas sobre a proposta do registro, vinda da atriz e presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de Minas Gerais (Sated MG), Magdalena Rodrigues.
 
Com 36 anos de carreira, ela reforça que em Belo Horizonte há muitos esforços em prol do teatro, grandes artistas e uma história a ser considerada. “A área de educação deve incorporar esta conscientização”, sugere. 
 
Ela espera que o reconhecimento faça com que os artistas também possam trabalhar com mais dignidade. “Até hoje as pessoas tratam o artista como um diletante – como se não fosse profissional, estivesse apenas se divertindo. A gente estuda, se prepara para isso”.
 
Diretora do Grupo Oficcina Multimédia, Ione de Medeiros concorda que tudo que favoreça a cultura e a construção da identidade local é uma boa ideia. “Precisamos olhar para a nossa casa e vermos quem constrói esta cultura. A única regra é a liberdade de expressão. A proteção não deve exigir enquadramentos em ideologia. Tem que manter a liberdade de expressão”.
 
Exposição “3º Sinal: Belo Horizonte em Cena” – Em cartaz até o final de 2015, no Museu Histórico Abílio Barreto (av. Prudente de Morais, 202, Cidade Jardim). Visitação: terça e sexta, sábado e domingo, das 10h às 17h; quarta e quinta, das 10 às 21h. Gratuito.
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