9º Cinebh homenageia Lucrecia Martel

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 15/10/2015 às 08:07.Atualizado em 17/11/2021 às 02:03.
 (Mostra CineBH/divulgação)
(Mostra CineBH/divulgação)

A partir desta quinta-feira (15), a capital mineira se rende à 9ª Mostra CineBH, que ocupa, até o dia 22, a Fundação Clóvis Salgado e o CentoeQuatro Centro Cultural. Ao todo, serão exibidas 65 produções brasileiras e internacionais. A abertura, às 20h, no Cine Humberto Mauro, será marcada pela exibição (em duas sessões, às 20h30 e às 22h30) de “Mate-me Por Favor”, de Anita Rocha da Silveira. Trata-se de uma co-produção Brasil/Argentina, país que também responde pela nacionalidade da homenageada desta edição do CineBH: Lucrecia Martel. A diretora dos premiados “Pântano” (2001) e “A Menina Santa” (2004), vale dizer, está de volta ao batente com “Zama”, longa de época viabilizado graças à coprodução com Brasil e Espanha (ainda em fase de finalização).

“Zama” tem Matheus Nachtergaele como antagonista e foi produzido pela mineira Vania Catani. Não bastasse, responde por uma experiência nova na vida da cineasta, que, pela primeira vez, trabalhou sobre um roteiro que não era seu. “Zama” é baseado no livro homônimo do argentino Antonio Di Benedetto, passado no fim do século 18, sobre um oficial da Coroa Espanhola que, ao aportar na Argentina, ajuda um grupo a perseguir u m perigoso criminoso.

Sobre Nachtergaele, Lucrecia diz que não conhecia nada dele. A sugestão partiu de Vania, definida como uma “louca” pela diretora. “Além da loucura de amor, o cinema exige honestidade, trabalho duro e criatividade para pensar em soluções. Eu vi Vania atravessando todas essas águas”, elogia a cineasta, que é adepta da lentidão. O que de certa forma explica um currículo tão “escasso” em 27 anos de carreira. “O atraso é uma boa maneira de filtrar as coisas que não importam realmente”, ensina a realizadora, que dá muito valor aos outros sentidos, condenando a sociedade de hoje por seu consumismo exagerado por imagens.

No CineBH, além de seis curtas, serão exibidos seus três longas (além dos dois já citados, “A Mulher Sem Cabeça”, de 2007). Ah, sim: Martel se diverte com a desaprovação de parte dos cinéfilos brasileiros em relação aos filmes produzidos por aqui, principalmente quando comparados à produção dos hermanos. Mas, bem, verdade seja dita, ela também não vê com excelentes olhos a filmografia recente da sua Argentina – muito focada, segundo ela, na classe média burguesa. Confira, a seguir, outros trechos da entrevista:

São quatro longas-metragens em duas décadas de carreira (computando “Zama”, ainda em finalização). Essa “demora” entre um projeto e outro é fruto de um perfeccionismo kubrickiano ou provocada pelas dificuldades inerentes às cinematografias sul-americanas? Como é o processo de desenvolvimento de seus filmes?
Eu acredito na lentidão. Em parte porque eu não sou rápida, acredito que por uma incapacidade minha para a velocidade. Mas, acho que existem muitas coisas no mundo e, se vamos somar uma, que seja importante. O atraso é uma boa maneira de filtrar as coisas que não importam realmente. O universo imediato, que chamo de “universo twitter”, não me parece melhor. Às vezes, nós começamos a buscar no Google algo com um entusiasmo louco, à deriva de uma página para outra, e, em poucas horas, não sabemos mais o que buscávamos com tanto frenesi.

Você tem, na escuta, um aspecto importante de seu trabalho, colhendo temas que aparecem até mesmo dentro de casa, na família. Na sua avaliação, os diretores ainda dão maior importância ao ver, em conceber cada informação visualmente, não sabendo usar os outros sentidos na maneira de apreender o mundo?
A imagem continua a ser a grande rainha do nosso tempo, é compreensível. Também o refúgio dos semianalfabetos e dos preguiçosos. A imagem proporciona uma sensação de imediatismo e eficiência na comunicação, por sua relação com o referente. Se eu vejo a imagem de uma mesa, é muito difícil pensar que é outra coisa. No entanto, se eu ouvir passos se aproximando, antes de pensar sobre o que está vindo, eu inferirei intenções para o seu ritmo: pode ser alguém que quer me dar uma surpresa ou roubar o meu telefone. O som precisa de um tempo maior para decodificação. Não é imediato, não é eficiente nesses termos, porque é muito pouco referencial. Tudo isso faz com que seja um elemento interessante para desestabilizar a percepção. A educação tem este paradoxo em seu interior, entre convencermos da legitimidade do real, da objetividade e inocência de sua existência, e, por outro lado, educar para transformar essa realidade, entendida como uma construção capaz de ser modificada. A imagem foi domada muito antes do som, curiosamente. Tudo que é domado deve ser visto com suspeita, como um rottweiler que hoje lambe sua mão e amanhã nos arranca o braço.

Você tem alertado para o foco argentino em filmes sobre pequenos dramas de classe média, aspecto que parece agradar espectadores e críticos brasileiros. Estamos sendo muito exigentes com o nosso cinema?
Críticos daí têm o mesmo complexo que os brasileiros (em geral). É como as autoridades daqui, que gostariam de ser uma raça diferente, mas, antes de serem autoridades, eram argentinos. Assim, a corrupção, antes de ser do governo, era argentina. Preencham o Amazonas com sofás e enviaremos milhões de psicanalistas argentinos para desvendar o fenômeno da relação do público brasileiro com seus filmes. Depois fazemos o inverso – mas mandem músicos, por favor.

A escolha de Matheus Nachtergaele para ser o antagonista de “Zama” partiu de você? Percebeu alguma diferença na maneira de atores (e também) técnicos brasileiros trabalharem?
A sugestão foi principalmente da Vania (Catani, produtora mineira radicada no RJ), pois não tenho conhecimento profundo dos atores brasileiros. Não havia visto trabalhos anteriores dele. E foi excelente. Também em relação à técnica. Eu não percebi especificidades brasileiras. Acho que as pessoas com quem trabalhei seriam boas em qualquer lugar do mundo. Eles são bons, simplesmente.

Seu filme anterior foi produzido pelo espanhol Pedro Almodóvar. Agora você teve a parceria de Vania (e, mais uma vez, Almodóvar). Como se deu esse contato? Ela, que é mineira, foi determinante para essa homenagem na Mostra CineBH?
Eu conheci a Vania em 2008, em Havana. Ela sentou-se com um mojito ao meu lado e disse que queria fazer um filme sobre um livro de Clarice Lispector. Isso me pareceu tão estranho que pensei não ser verdade. Nós nos encontramos novamente em Berlim, em 2012, e lhe disse o que gostaria de fazer com “Zama”. Ela imediatamente entrou para a equipe. Na verdade, ela é louca, como todos que amam o cinema, não conseguindo fechar as contas. Uma produtora que te acompanha com um filme por quatro anos, que lhe apresenta gente inteligente, talentosa e adequada para o que tem que fazer, que pensa nas melhores condições para fazer um filme, é uma apaixonada por cinema. Mas o cinema, além da loucura de amor, exige honestidade, trabalho duro e criatividade para pensar em soluções. Eu vi Vania atravessando todas essas águas.

Quando assumem produções internacionais, muitos diretores que tiveram uma filmografia identificada com as suas cidades passam a ter uma visão mais cosmopolita, apegando-se a aspectos comuns a todas as nacionalidades. Como essa gradual saída de Salta afeta seu cinema?
Não quero deixar Salta. Quero ir mais e mais adentro, pois a única maneira de ser capaz de se comunicar com o resto do mundo é essa. Estar em um lugar não é uma deficiência, a menos se deixou de ver esse lugar, e nesse caso é melhor ir para outro lugar. O que não pode acontecer é andarmos como zumbis pelas ruas de nossa infância.

Confira o horário de exibição dos títulos de Lucrecia Martel, bem como a programação do CineBH, em cinebh.com.br

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