
Com a onda de atualizações cinematográficas sobre o mundo dos contos de fadas, comandada por Hollywood, a França quis fazer ela mesma a sua versão 2.0 de “A Bela e a Fera”, escrita originalmente por Gabrielle-Suzanne Barbot, em 1740.
Uma das razões para “levar de volta” a obra da Dama de Villeneuve é tentar apagar um pouco da memória dos espectadores as distorções realizadas na animação “A Bela e a Fera”, lançada pela Disney em 1991 e que marcou época ao concorrer ao Oscar.
A fidelidade implica em não abrir mão da carga violenta da narrativa, que, como qualquer fábula, aponta para a vitória da moral e também para a punição (quase divina) dos malfeitores. E também retomar as fortes críticas sociais à burguesia da época.
SACRIFÍCIO
Até aí, nada demais, pois uma característica das atuais adaptações é o lado sombrio, bem como as atualizações das histórias, com personagens feministas e muitas metáforas sobre a realidade de hoje. Mas esse “A Bela e a Fera” vai um pouco mais além.
O amor de Bela, vivida por Léa Seydoux (protagonista de cenas calientes em “Azul é a Cor Mais Quente”) não é tão abnegado, enxergando um bom coração por trás da aparência da Fera (Vincent Cassel). Ele é induzido por misteriosas manifestações da natureza.
A história do casal é envolvida por muito sacrifício e castigo. A família de Bela paga o preço da ostentação do luxo, passa a morar no campo e, mesmo assim, parece não ter aprendido a lição, querendo de volta o que perdeu a qualquer custo. E Bela sofre por fazer parte dela.
E o que poderia ser a sua redenção, ao encontrar o futuro amado, se transforma numa batalha contra a cobiça dos homens. O diretor Christophe Gans reforça a ação nas sequências finais, com muitos efeitos especiais. O filme todo, por sinal, é muito bem feito tecnicamente. E lembra muito um dos primeiros trabalhos do diretor, “O Pacto dos Lobos” (2002), na maneira como costura uma movimentada história de época com reflexões sobre as diferenças sociais.