A gentileza orgânica do artista carioca Ernesto Neto

Altino Filho - Hoje em Dia
Publicado em 21/04/2013 às 15:37.Atualizado em 21/11/2021 às 03:00.

O carioca Ernesto Neto passeia entre a escultura e a instalação. E envolve as pessoas. Literalmente. Seus trabalhos fazem a gentileza de interagir com o espectador e este é quase sempre convidado a entrar, a tocar, atravessar, a fazer parte da obra.

Influenciado pelo movimento neo-concreto, Ernesto Neto é visto hoje como uma espécie de ativista das artes e do pensamento contemporâneo brasileiro. Um dos proprietários da simpática galeria Gentil Carioca (localizada na Praça Tiradentes, centro do Rio) - que sempre recebe nomes instigantes da criação contemporânea -, Ernesto é um cara que vive e interfere no Rio de Janeiro. O réveillon pode ser na praia com os amigos, seu bloco agita o carnaval, seu sul precisa de um norte, e o Rio não deve deixar de ser gentil nem carioca.

Quais são os projetos da Gentil Carioca para 2013?
Nosso projeto para 2013 é gentilizar o mundo por gentilizar. Queremos misturar pessoas, filosofias e tendências, abrir espaço para uma sociedade que se reconheça multi social, racial e cultural, onde o ocidente seja uma parte significativa mas não o todo, o centro ou o uni. Multiverso é o que queremos!

Qual foi o benefício trazido pelo espaço criado na Lagoa para a Galeria?
Trouxemos frequentadores da gentil encruzilhada para o satélite bucólico da zona sul. E, para a zona sul, trouxemos energia, gritos, sussurros e beijos da encruzilhada/centro/Saara.

Em 2011, você fez uma exposição grandiosa em Buenos Aires. Conte pra gente como foi esse trabalho.
... o “Bicho SusPenso na PaisaGem”, foi incrível! Uma das mais inusitadas da série esculturaventura que não exatamente acontece em série e que não tem exatamente uma relação estética entre elas, mas que se destaca na paisagem de esculturas que faço pela escala aventureira, e que curiosamente sempre que tenho que montar uma obra dessas elas acontecem com o tempo de montagem super reduzido. Tivemos um time de jovens artistas e estudantes incríveis que resultou na mostra Calle Rua na Gentil Carioca com artistas argentinos.
 

Ernesto Neto - A gentileza orgânica de Neto

Sabemos de sua atuação no universo da arte contemporânea no Rio. Como você está vendo esse momento de ‘reconstrução’ do Rio de Janeiro como cidade fomentadora de cultura e arte?
Turbulento, um movimento muito rápido numa cidade docemente preguiçosa. Vivemos num tempo de extremos, e de falta de conversa. As ações, tanto da prefeitura quanto do governo, são circunstanciais. Claro que os eventos da agenda futura são por um lado excitante e o carioca se sente renovado. É um luxo ter Paulo Herkenhoff e sua equipe no mar, vamos ver até onde vamos. Perdemos uma oportunidade maravilhosa de surpreender a partir do evento da aldeia maracanã, considero um caso de arqueologia urbana, de repente nos deparamos com um sítio arqueológico e, invertendo o óbvio, trocamos ouro por chumbo. O inteligente seria cultivá-lo, trazer várias lideranças indígenas e realizar no centro das atenções uma aldeia maracanã em diálogo com a sociedade brasileira e mundial. Enfim, estas oportunidades nos mostram o perigo de ter o destino orientado pela vontade da grana, que muitas vezes é cega. “A natureza, como diz meu amigo Marcus Wagner, somos nós ”. Natureza é convivência neste espaço urbano, nesta mistura de tudo e todos, porque carioca é mistura! Apresenta um território rico para o debate, o conflito e a arte, assim temos pequenos lugares onde a arte dança, e atualmente vejo ela dançar principalmente na rua. Os jovens estão nas ruas.Muitas comunidades estão policiadas, assim a convivência entre asfalto e favela está mais tranquila. O trânsito está maior mas, ao mesmo tempo, enquanto temos festas voltadas para o público asfalto, nas favelas o Funk continua afastado. Porém, neste carnaval na terça gorda o vaideretro me levou a Ipanema, e o bloco bienal das artes simplesmente foi hibridizado com o povo preto Funk da favela. Foi incrível e o melhor veio depois, ao voltar para a orla calçada/asfalto encontrei rodas de samba intercaladas por rodas de Funk (traduzindo: carros com o porta-malas levantado com o batidão rolando e uma galera misturada, dançando. E ainda várias pessoas espalhadas pelas ruas, fantasiadas, tipo Bola Preta! Isto é cultura zona norte. Ipanema está tomada pela negada Fuck chacoalho/carioca, era lindo ver esta mistura, esta potência. E, assim como o Rio, só seremos um grande país quando conseguirmos nos livrar de nossos preconceitos e defeitos históricos, e nos entendermos como Brasileiros, Latino Americanos, e Terráqueos. Sim, tem muita coisa acontecendo aqui no Rio. Ontem (quarta-feira) mesmo tivemos a abertura da exposição “Travessias 2” no Complexo da Maré, com vários conhecidos, eu incluso, obra de Luiza Mello e Raul Mourão, do observatório da favela, Jaison, Marcus Faustini, que acabam de lançar os novos cariocas, enfim um acontecimento especial - e para poucos - uma abertura desfile do Opavivara simplesmente inacreditável diante de um dilúvio... aliás tem chovido muito no Rio.... muita água.

Qual a sua visão de Inhotim?
Um delírio, pena que no mundo são poucos os delirantes. Me surpreende Brumadinho não estar se transformando tão rápido, por que outros empresários não começam a fazer hotéis e tal? Inhotim é um lugar incrível e único, talvez uma resposta ultra sofisticada de nossa cultura de mistura para estes mega museus, Epcot centers e coisas do gênero. A natureza dá frutos? A arte também, em Inhotim temos uma delicadeza orgânica na maneira de ver e vivenciar arte. O mundo nunca mais será o mesmo depois de Inhotim. Fico curioso para ver quando os manda chuvas da cultura planetária irão dar uma relaxada para perceberem que a vanguarda mega institucional está por aqui.

Como você vê, como carioca, o movimento de artes plásticas em Minas?
Poderoso. Na Bienal de Sharjah só deu mineiro! É interessante que a nova geração ocupou um espaço e com isso começou a trazer holofote para artistas mais velhos, da minha geração por exemplo, isso não é a toa, pra mim vejo três fatores: o trabalho excelente da Rivane (Neuschwander), a Bolsa Pampulha criada pelo Adriano Pedrosa e continuada pelo Rodrigo Moura, e finalmente, Inhotim, estímulo, orientação e visibilidade.

 


Existe algo - em seu entender - que é urgente dizer neste momento?
Enquanto brasileiros, nos conscientizarmos de que não somos ocidentais. E começarmos a estudar, no ensino fundamental, não só a história da Europa mas a história da África e dos Índios. Mas não como folclore ou uma coisa menor, mas como parte fundamental de nossa constituição cultural. Somos esta mistura como um todo, independente de nossa cor da pele. Enquanto terráqueos, pensarmos menos em grana e mais na vida.
 

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