
“A Lenda de Tarzan” é o primeiro blockbuster 100% contra o racismo. Isso pode soar estranho com um inglês assinando a direção (David Yates) e um perfeito biotipo nórdico (o sueco Alexander Skarsgard) na pele do Homem Macaco, mas ao prestarmos atenção no discurso do filme – principal estreia da semana nos cinemas – notaremos o seu empenho na luta contra o preconceito.
O curioso é que não se trata de um longa-metragem politizado, como nas produções do diretor negro Spike Lee. “A Lenda de Tarzan” é um filme de ação, principalmente, que recorre a muitos efeitos especiais para criar uma reprodução realista do contato entre humanos, gorilas e outros animais das florestas africanas, onde Tarzan foi criado, antes de ser levado para a Inglaterra.
O que muda é o contexto, a maneira como os personagens observam a realidade ao seu redor e os protagonistas em si. Apesar de ser branco, ter nascido numa família tradicional, em nenhum momento temos dúvida sobre a qual raça ele se sente mais ligado. Ele tem uma relação de muito carinho com a sua família de gorilas. Isso tudo sem recorrer ao velho artifício de “humanizar” os animais.
SUBTEXTO
Há um grande respeito às culturas diferentes, na compreensão de vida que eles têm. Até mesmo o chefe de uma tribo, negro, vivido por Djimon Hounsou, que só pensa em eliminar Tarzan, carrega uma lógica (vingar a morte do filho) e, a partir dele, há uma bonita mensagem, quando o rei das selvas explica que agiu para proteger um gorila, tão importante quanto qualquer humano.
O filme possui vários subtextos importantes, como a questão do trabalho escravo estimulado pelos europeus, o que leva ao principal antagonista (Christoph Waltz), um branco refinado que pretende ampliar os domínios sobre o Congo Belga, dizimando todas as tribos. É a primeira vez numa superprodução, possivelmente, que torcemos contra o vilão devido ao seu racismo.
A mocinha do filme, Jane, interpretada por Margot Robbie, também possui o mesmo sentimento que Tarzan sobre a África, sentindo-se em sua terra. Sensação que é constantemente reforçada na trama. Já Tarzan se mostra o tempo inteiro de olhar preocupado e determinado. A razão de voltar ao continente africano é justamente ajudar George (Samuel L. Jackson) a descobrir atividades escravas.
Produção é boa sugestão para as aulas de História na escola
George talvez seja um protótipo de herói melhor do que Tarzan. Pelo menos, da forma como aprendemos a vê-los. É irônico, tem um passado de culpas e sofrimento, não se intimida diante do obstáculo e cumpre um papel de vigilante mundial. E como muitos deles, é também um estandarte americano, deixando claro que os EUA foram o primeiro país a abolir a escravatura.
Esse talvez seja o único senão de “A Lenda de Tarzan”, mas plenamente desculpável ao nunca abandonar seu discurso antirracismo, perceptível desde os pequenos gestos. É uma rara superprodução que poderá ser usada por professores em suas aulas de História, por oferecer um quadro preciso sobre as circunstâncias que motivaram a escravidão e as grande expansões.
E, para os garotos, será uma “aula” ao mesmo tempo instrutiva e divertida, já que Yates jamais perde de vista a ação e o suspense, conseguindo a proeza de filmar de maneira realista dentro da floresta e, principalmente, os vários animais que cortam a trajetória do personagem. E Alexander tem tudo para se tornar um novo John Weissmuller, o mais famoso Homem Macaco do cinema, perpetuando o famoso grito.