
Numa época de graves ataques pessoais, feitos principalmente pela internet, qualquer filme que tenha como bandeira a tolerância e o perdão, ainda que dentro de uma realidade tão complexa como a apresentada por “A Luz Entre Oceanos” – cartaz a partir de amanhã nos cinemas – merece crédito.
A segunda metade do longa nos força a pensar sobre os caminhos sinuosos que trilhamos, mesmo sem, supostamente, querer mal a ninguém. E a maneira como os resolve, sem buscar uma solução que agrade a todos, mas com viés humanista, revela uma força que falta na primeira parte.
Sobram planos gerais da ilha onde o casal (na tela e na vida real) Michael Fassbender e Alicia Vikander vai morar para tomar conta do farol localizado numa região da Austrália, logo após a Primeira Guerra. Tom, ex-soldado, é mais cético, recebendo com sobriedade o que a vida ainda tem a lhe oferecer.
Mar traiçoeiro
Isabel é um contraponto jovem e apaixonante que parece mudar de sina ao pisar na ilha. A diferença entre eles está no que esperar, algo que define um objetivo não alcançado pela moça: ter um filho. Quando uma linda criança chega de barco, ao lado de um homem morto, a palavra que vem é destino.
A analogia é clara, presente no livro homônimo que deu origem ao filme, de M. L. Stedman, em torno de um mar traiçoeiro e cruel, sobre o que entrega e o que devolve. No caso de Tom e Isabel, o mar “lhes dá” o filho que tanto anseiam, mas o preço disso será alto, como a narrativa não faz questão de esconder.
O problema de “A Luz Entre Oceanos” está na ausência de camadas, na criação de uma atmosfera, como a feita no brasileiro “A Ostra e o Vento”, também localizado num farol, em que o não-dito, o mistério, o mar como um personagem tão vital quanto os humanos estabelecem uma leitura complexa.
Da forma como é descrito, Tom parece um herói, vilanizando Isabel. Seria a vitória da racionalidade, do homem provedor, se não soubéssemos de sua culpa, originária dos tempos de guerra, em que as regras são bem outras. Fassbender nos lembra seu recente Macbeth tomado pelo arrependimento.
Quando Tom tenta retomar a vida longe do front, a lei que passa a conhecer é a de que precisa punir, quando todos os envolvidos já foram bastante punidos ao terem as vidas transformadas, mas o filme está longe de completar essa travessia de forma satisfatória.