A viola universal do mineiro Fernando Sodré em novo disco

Marco Lacerda* - Especial para o Hoje em Dia
Publicado em 01/04/2013 às 09:28.Atualizado em 21/11/2021 às 02:25.

Como Ney Matogrosso, que escolheu Juiz de Fora para fazer a pré-estreia do seu novo show ("Atento aos Sinais"), o violeiro mineiro Fernando Sodré optou por Itamonte, também em Minas, para abrir sua temporada de shows de 2013. A temporada antecede o lançamento do terceiro CD do músico, "Viola de Ponta Cabeça", que acontecerá ainda neste primeiro semestre. Antes disso, Sodré levará seu concerto às principais cidades de Minas e do Brasil com escalas previstas em Nova York e Londres.

Em suas apresentações Fernando não conta com apoio financeiro ou patrocínio, enquanto a milionária Claudia Leitte é contemplada com R$ 6,5 milhões dos cofres públicos para uma turnê em que serão despejadas toneladas de detritos musicais nos já calejados ouvidos brasileiros. A única arma com a qual Fernando Sodré conta é a sua viola caipira, instrumento que está nas raízes da cultura musical brasileira, também conhecido como viola sertaneja, viola nordestina, viola cabocla e viola brasileira.

O instrumento tem sua origem nas violas portuguesas, oriundas de congêneres árabes como o alaúde. É descendente direta da guitarra latina, que, por sua vez, tem origem arábico-persa. Já as violas portuguesas chegaram ao Brasil trazidas por colonos portugueses de diversas regiões lusitanas e passaram a ser usadas pelos jesuítas na catequese de indígenas. Mais tarde, os primeiros caboclos começaram a construir violas com madeiras toscas da terra, dando origem à viola caipira.

Dito isso, é bom lembrar que Sodré subverteu não só o design, mas a sonoridade típica do instrumento à qual estávamos habituados. Quem vai aos seus concertos esperando ouvir lamentos sertanejos com certeza volta para casa tão decepcionado como aqueles que, em 1976, pagaram uma grana preta na esperança de ouvir Miles Davis tocar o "Concerto de Aranjuez" no Teatro Municipal de São Paulo. Totalmente mergulhado na fusão jazz-rock, Davis estourou os tímpanos conservadores com um som arrebatador demais até para os ouvidos modernos da época.

Algo semelhante acontece com a música de Fernando Sodré. Aos 34 anos, ele já é reconhecido como um dos mais importantes representantes da viola caipira instrumental no Brasil, buscando em seu instrumento novos caminhos e experimentos sonoros que surpreendem o ouvinte. Inconformado com o tamanho natural das coisas, Sodré inovou com a criação da viola de 14 cordas, um instrumento único, com maior extensão harmônica e um timbre surpreendente.

Originalidade e virtuosismo marcam o trabalho do violeiro

A fórmula do sucesso de Fernando Sodré é a mistura da sonoridade da viola caipira com a forma peculiar com que ele a toca, o que lhe permite alcançar um estilo absolutamente pessoal.
 
Colecionador de prêmios, o violeiro destaca-se no cenário nacional não só pela originalidade do seu trabalho, mas sobretudo por seu virtuosismo. Sodré já dividiu palcos com grandes nomes da musica brasileira como Hamilton de Holanda, Almir Sater, Toninho Horta, Roberto Correa, Juarez Moreira e uma legião incontável de pesos pesados.

Influenciado por mestres como Tom Jobim e Raphael Rabelo, além de Pat Metheny e Paco de Lucía, em "Viola de Ponta Cabeça", Fernando Sodré vai mostrar aos ouvintes as preciosidades que imprime ao seu trabalho a cada novo disco. Quando nada será uma injeção de grandeza musical nos nossos ouvidos saturados de axeismos, funquices e sertanices de quinta categoria.

Quem quiser esquentar as turbinas até a chegada do novo CD pode ouvir seus trabalhos anteriores: "Rio de Contrastes" e "Fernando Sodré".


*Marco Lacerda é jornalista e escritor, autor dos livros "As Flores do Jardim da Nossa Casa", "Favela High-Tech" e "Clube dos Homens Bonitos".

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