
TIRADENTES – O suspense de hoje à noite não está limitado à expectativa sobre o anúncio dos vencedores da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Escolhido para encerrar a programação de filmes do festival, “Para Minha Amada Morta” é um thriller que acompanha um fotógrafo, interpretado por Fernando Alves Pinto, que descobre a traição da esposa recém-falecida e busca acertar as contas com seu “rival”.
É nesse trajeto para a consumação de sua vingança, tema recorrente no gênero, que o longa-metragem de Aly Muritiba se diferencia dos demais. “Nós, como espectadores, sabemos tanto quanto o personagem de Fernando, numa posição privilegiada em relação aos outros personagens. Acontece que meu filme tem um ritmo distinto, habitando o thriller, mas não reiterando todos os seus elementos”, explica o realizador.
Essa mudança tem muito a ver com o lado voyeur do protagonista, que, na busca de entender o que aconteceu, acaba se inserindo numa realidade social distinta da sua, encontrando Salvador, um ex-criminoso, dono de um ferro-velho e agora evangélico. “Há uma tentativa inicial de tentar entender a situação, quando alguém trai a sua confiança, e confrontá-la, mas como esse outro cara é a antítese dele, um espelho inverso, há uma nova relação”, afirma.
Aspectos
Diferentes não só do ponto de vista social, mas também no modo de falar e pensar (“O fotógrafo é mais cerebral, enquanto Salvador é mais físico”, compara Muritiba), ele precisa estar na pele do outro para entender a razão da traição. “Há um desejo de mimese, com a aproximação dele se dando de maneira simbiótica, cheirando a camisa de Salvador e vestindo-a depois. Olha para a mulher dele e fala que está gostando dela. Ele queria ser Salvador por algum momento talvez”.
A presença de Fernando no meio daquela família de periferia provoca incômodo na plateia, que enxerga frieza e calculismo na forma como ele pretende dar cabo da situação. “Fernando está o tempo todo tentando controlar um vulcão interno prestes a explodir. Mas ao se aproximar daquela família, que o acolhe, isso acaba arrefecendo os seus impulsos mais primais, de violência e sexo. Está sempre prestes a matar ou comer alguém, inclusive o Salvador”, analisa.
Muritiba pondera que, se a classe social do homem infiel fosse a mesma de Fernando, os desdobramentos provavelmente seriam outros. “Seria mais compreensível, em certo aspectos, pois teria os mesmos gostos dele e da mulher, e as reações seriam mais rápidas”, explica. O contato com Salvador representa um desejo de conhecimento, de experenciar. “A maior crueldade do personagem é querer ocupar o lugar do outro, o que não é deliberado. Mas consegui seduzir a todos, da esposa aos filhos”.
Feliz com o resultado de seu primeiro longa de ficção, que tem estreia prevista para 31 de março, o cineasta agora prepara uma série de TV, “Vamo Junto!”, que será filmada na periferia de Curitiba, e a adaptação do livro “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera.
*O repórter viajou a convite da organização do evento.