
Laila Garin, de 38 anos, não tinha nascido quando o musical “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes (1940-1976), estreou no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, em 1975, após sofrer cortes devido à censura da ditadura militar. No entanto, documentários sobre o espetáculo gravados pela dama do teatro brasileiro Bibi Ferreira, protagonista na pele da passional Joana, chegaram ao conhecimento de Laila anos mais tarde. “Descobri a beleza desse texto por causa de Bibi. Fiquei encantada com a forma perfeita de se falar de dores tão profundas”, elogia.
Mais de 40 anos depois da estreia da peça construída toda em versos, a atriz baiana, premiada no ano passado pela interpretação em “Elis – A Musical”, assume a responsabilidade de fazer o papel que foi de Bibi. Em BH, as sessões ocorrem hoje, amanhã e domingo, no Grande Teatro do Sesc Palladium.
Versão enxuta
A história volta aos palcos com uma adaptação inédita do diretor Rafael Gomes e direção musical de Pedro Luís. Laila divide a cena com Alejandro Claveaux, como Jasão. No original, mais de 15 atores contracenavam, o que justifica o nome escolhido agora: “Gota D’Água (a seco)”.
Ao concentrar em Joana e Jasão, caracterizados por terem ideologias diferentes, a proposta foi a de chegar à essência da trama. “A gente não quis perder tirando personagens, mas ganhar na relação amorosa do casal, abordando, assim, questões clássicas e antagônicas, como o rico e o pobre, a paixão e a ambição, o homem e a mulher”, explica Laila. Para a versão mais enxuta, músicas de Chico Buarque que não estavam na primeira versão, como “Pedaço de Mim”, “Cálice”, “Baioque” e “Caçada”, entraram para servir à dramaturgia.
Uma tragédia grega
A adaptação do teatro é uma transposição da tragédia grega “Medeia” (431 a.C), de Eurípedes, que foi escrita para a televisão por Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). Chico Buarque e Paulo Pontes transformaram Medeia em Joana, mãe de dois filhos, frutos do casamento com Jasão. O homem, um compositor popular, acaba se aliando ao empresário rico Creonte. Pensando na carreira, o músico decide largar Joana e se casar com a filha do milionário, que explora os moradores do conjunto habitacional onde Joana vive.
Apesar dos atos extremos da personagem, a atriz diz encontrar semelhanças com ela. “Me identifico com Joana no temperamento forte e na questão de não se submeter, mas não sou tão radical”, pontua, ao se referir ao plano de vingança traçado pela mulher contra o ex-parceiro. “Joana sofre por não ter flexibilidade. Porém, entendo a dor dela; é legítima. E, na nossa versão, Jasão é um cretino, mas ama Joana. Não é um espetáculo maniqueísta”.
Serviço: “Gota D’Água (a seco)”, hoje e amanhã, às 21h, e domingo, às 19h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1046). Plateia 1: R$ 80 e R$ 40 (meia). Plateia 2: R$ 70 e R$ 35 (meia). Plateia 3: R$ 50 e R$ 25 (meia).