
A chance de ser transformado em nota de rodapé no grande livro do rock chegou bem perto do Aerosmith. A culpa dessa proximidade com o segundo escalão do gênero foi dos integrantes da própria banda, que literalmente “cheiraram” a(s) carreira(s) em fins dos anos 1970, depois de terem se transformado em sinônimo de hard rock norte-americano, ícones de jovens tão distintos quanto Michael Stipe (REM), Scott Weiland (Stone Temple Pilots) ou Slash (Guns N’Roses) e muitos outros, que posteriormente se transfiguraram em ídolos da música eles mesmos.
O motivo para a doutrinação inicial provocada por Steven Tyler e Joe Perry é simples de se entender: rock com altas doses de testosterona– especialmente na parte lírica, com o primeiro se intitulando o “Shakespeare da putaria”– de perfil sônico de matiz blueseira, mas absolutamente devoto ao rock inglês de Rolling Stones, Led Zepellin, Cream, entre outros.
Assim, a fórmula do vocalista carismático com o guitar hero, curtida em amor e ódio, ganhara mais um produto bem sucedido para a época. “Acho sensacional e saudável essa dinâmica, faz parte total da mítica do rock. Grandes bandas sempre tiveram grandes rivais, duplas de frente com egos inflados. Talvez isso esteja à beira da extinção”, diz o jornalista especializado em rock clássico e escritor Bento Araújo.
Em termos práticos, no ambiente juvenil e emaconhado do mundo musical pós-Woodstock, o Aerosmith oferecia a trilha perfeita: da balada épica “Dream On”, o primeiro sucesso, passando por pauleiras (para usar o léxico do período) como “Sweet Emotion”, “Back In The Saddle”, “Mama Kin”, e a lista é longa, como o show de logo mais deve provar.
Assim, o grupo se tornou um dos signos mais potentes do rock n’roll e seus clichês, sedimentados no período. Muito volume, muitos shows em estádio e muitas, muitas drogas. Na autobiografia, a divertidíssima “O Barulho na Minha Cabeça Te Incomoda?”, lançada em 2011, o vocalista do grupo dispensa pudores para enumerar episódios onde cocaína, heroína e outros aditivos foram tão protagonistas quanto a música que eles emanavam.
Mas, como Araújo ressalta, o Aerosmith foi sim uma potência norte-americana–mas apenas lá. “Creio que o grupo não pertencia ao ‘primeiro escalão’ do rock. Eram gigantes por lá, mas um grupo meio marginal no Brasil”, aponta ele. Vale lembrar que o consumo de rock no país durante os anos de ferro da ditadura militar era algo marginalizado. Assim, a percepção sobre a banda frequentemente recaía como “um pastiche de Stones não levado muito a sério pela crítica”, segundo Araújo. “É a partir da volta, já nos anos 80, que a coisa ficou gigantesca”. Grande o suficiente para encarar a multidão que deve ir à Pampulha hoje.
Banda ganhou nova vida nos anos 90
O Aerosmith não estava presente nos vídeos de lançamento da MTV nos Estados Unidos, que reuniam artistas então na crista da onda saudando a chegada da emissora, em 1981. O motivo é simples: neste período, o grupo estava na pior fase, com debandadas de integrantes, colapsos no palco, abuso de tudo. Vinte e cinco anos depois, seria impensável falar do canal televisivo sem citar o grupo.
No fundo do poço da relevância, pilotado por um alucinado Steven Tyler (Perry saíra do grupo em 1981), o grupo de Boston começaria uma das maiores histórias de renascimento artístico justamente na tela do canal. O primeiro sopro de nova vida se deu a partir da ideia do produtor Rick Rubin, de juntar um grupo de rap, o Run DMC, com a então desgastada lenda do rock em uma versão de “Walk This Way”.
O encontro resultou em um clipe que, para muitos, inauguraria visualmente a aclamada mistura entre os dois gêneros; e colaria na retina das novas gerações a figura do Aerosmith– então já reunido com sua formação original.
O riff da faixa presente no disco “Toys In The Attic” se encaixou com perfeição às rimas da dupla nova-iorquina, e o vocal de Tyler no refrão soava como uma espécie de grito de sobrevivência para o grupo. Um momento realmente histórico na cultura pop.
A partir daí, poucos grupos souberam usar a plataforma de maneira mais eficiente que o Aerosmith. A bordo de, justiça seja feita, ótimos trabalhos de estúdio (alguns deles destacados ao lado), o Aerosmith fez jus ao seu papel de bastiões do hard rock , gênero muito em voga na época devido a artistas que aliás, devem muito à banda, como Guns N’Roses e Motley Crüe, alcançando inédita popularidade.
Desta vez, a nível global. Culpa dos vídeos para faixas como “Jane’s Got A Gun”, “Sweet Emotion” e, especialmente, a dobradinha “Cryin”´ e “Crazy”, que apresentavam à “geração MTV” duas de suas maiores pin-ups, Alicia Silverstone e ninguém menos que a filha do vocalista do grupo, Liv Tyler. “O Aerosmith caiu no gosto de uma nova geração – a geração MTV–, acho que esse foi o lance. Então os clipes foram fundamentais nesse renascimento”, diz o jornalista e especialista em rock Bento Araújo.
Já nos anos 2000, o grupo voltou a passar alguns dos velhos perrengues– drogas, acidentes, baixas médicas– mas ainda assim conseguiu se manter em voga. Steven Tyler, por exemplo, alcançou inédita popularidade internacional ao se tornar um simpático jurado do programa American Idol, concretizando um caso com poucos parâmetros de renascimento artístico no mundo do entretenimento.
Assim, é possível dizer que a mitologia da fênix ( a ave que ressurge das cinzas) veste bem o grupo. “Um caso bem peculiar e inusitado”, resume Araújo. “O Deep Purple também voltou mais ou menos na mesma época, mas acho que foi algo mais linear com o sucesso que já tinha nos anos 1970”.
