
Heloisa Pietro costuma dizer que os livros a ensinaram a viver e que se tornou escritora “para pertencer à grande rede de contadores de histórias que acompanham as pessoas desde que o mundo nasceu”. Em “Andarilhas”, lançamento da autora pela SM Editora, ela faz referências à maneira como essas histórias se deslocam no tempo e por lugares diferentes; promovem encontros e perduram na imaginação de quem as escuta e as transmite.
No enredo da nova publicação, três adolescentes: André, Leila e Nadja são protagonistas e, ao mesmo tempo, coadjuvantes de histórias da tradição oral (uma budista, uma árabe e uma cigana).
Inspiração
Recontadas por Heloísa em um cenário urbano, contemporâneo, as narrativas carregam o conceito de movência. “Me inspirei em ‘Cultura das Bordas’, de Jerusa Pires Ferreira, livro espetacular que fala da movência. Pensei em passar o conceito para o leitor contemporâneo, que reclama da falência das histórias. Quis chamar a atenção para a movência das histórias e, como, ao mesmo tempo, estão presentes”, conta a autora.
Onde moram as histórias? Como elas percorrem diferentes tempos e espaços? Estes e outros questionamentos feitos pela autora instigam o leitor a mergulhar em “Andarilhas”. A narrativa que abre o livro conta uma história budista mesclada com acontecimentos atuais. Em sua primeira viagem de avião, o garoto André se senta ao lado de um monge tibetano e é ele quem conta ao menino a história de um jovem arqueiro que mora nas nuvens.
Há dois anos, numa viagem (voo BH-São Paulo), Heloisa se sentou ao lado de um monge tibetano, que inspirou a autora. “Ele (monge) se vestia do mesmo jeito que conto no livro. Antes de aterrissar em Congonhas, passamos por uma turbulência. Ficamos em pânico. Aí, olhei para o lado e vi o monge. Ele me acalmou muito”.
Lenda
O conceito de deslocamento aparece também nas ilustrações de Jan Limpens, como na imagem da flecha do arqueiro, que cruza os ares ou na figura do imponente cavalo árabe e ainda através do canto alegre dos ciganos. Histórias que contam o começo do mundo, estão na publicação.
A autora fala da lenda do cavalo árabe e dedica a história à sobrinha e afilhada Luciana Pietro Cinacchi, campeã de hipismo. No último capítulo, Heloisa conta a história dos ciganos, “povos que se sentem castigados por Deus, que estão por toda parte e não deixam de lado suas tradições”. E compara: “o destino deles é o mesmo de uma história colocada na garrafa e lançada ao mar”.