Angelina Jolie se rende ao ‘clima’ do cinema europeu

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 10/12/2015 às 07:28.Atualizado em 17/11/2021 às 03:16.
 (Divulgação)
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O reencontro do casal Angelina Jolie e Brad Pit nos sets de filmagens, em “À Beira-Mar”, uma das estreias da semana nos cinemas, tem as mesmas motivações de outro par famoso das telonas (já separado), que dividiu a cena em “De Olhos Bem Fechados”. Tom Cruise e Nicole Kidman também viviam na história uma relação desgastada pelos anos, em busca de novos ambientes e sensações para saírem da rotina.
 
Esse sintoma de acomodação e crise perdura por mais de uma hora em “À Beira-Mar”, dirigido por Angelina. Ela faz a mulher problemática de um escritor famoso (Pitt), em viagem por um lugar paradisíaco em Malta. Tudo acontece em algum momento dos anos 70, mas essa informação pouco acrescenta a não ser por um certo ar de estranheza, possivelmente para assinalar algo que está suspenso no tempo.
 
Diferentemente de “De Olhos Bem Fechados”, que toma a forma de um thriller recheado de mistérios, a narrativa de “À Beira-Mar” caminha em direção a um drama existencial, muito depressivo. A beleza do local, um hotel com um mar azul em frente, em nada altera a rotina do casal – o marido não sai do bar, sem conseguir escrever uma linha sequer, enquanto a mulher se tranca no quarto, com os dois evitando se encontrar.
 
A viagem só parece cristalizar a silenciosa divergência entre eles. A ideia de Angelina, que também escreveu o roteiro, é oferecer uma sensação de decadência, não só pela inversão da ótica do lugar, que geralmente está vazio, impressão ampliada pelos planos abertos e pelo quarto imenso do casal, como também pela ausência. Não há com quem conversarem a não ser o dono do bar, exemplo maior de vida rotineira.
 
A atriz e diretora talvez quisesse fazer o seu “Antonioni”, um filme sobre a falta de comunicação nos tempos modernos, tema caro aos trabalhos do italiano Michelangelo Antonioni. Com dois atores que são sinônimos de beleza, aliado a bonita fotografia, o que possivelmente ela tente pôr em questão é que a falta de graça no interior desses personagens. Podemos chegar a pensar que suas vidas são tão miseráveis quanto a nossa.
 
O próprio filme surge deslocado no tempo. À crítica a uma burguesia sem encanto e emoção seria mais apropriado nas décadas de 60 e 70. “A Beira-mar” não dialoga com o hoje. Nesse sentido, é completamente descontextualizado politicamente. A não ser pelo voyeurismo dos personagens, cada vez mais presente em nossa sociedade na forma de redes sociais, patente no momento em que Angelina vai para o “outro lado”, exibindo-se.
 
Esse é um ponto comum com “De Olhos Fechados”, que também trata dos limites da excitação visual. “À Beira-Mar” é um filme sobre o olhar para fora, sobre a busca constante como parte da essência da vida. E que exige do público também um outro tipo de observação, mais contemplativo. Quem se deixar levar por esse desconforto, porém, sairá bastante decepcionado com o final e a necessidade de deixar tudo explicado – e definitivamente consertado.
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