A cada ano que se passa, a impressão é de que não existe fronteiras para a animação, que há muito tempo deixou de ser um mero passatempo infantil, abrigando definitivamente o conceito de “family movie”, tornando-se uma diversão para toda a família ao oferecer camadas de leitura que agradam todas as faixas etárias.
Nesse sentido, os resultados têm sido acima da média, especialmente as produções que buscam algum diferencial, nas referências a um gênero ou na abordagem de um tema considerado “difícil”, ingredientes presentes em “Sing – Quem Canta Seus Males Espanta”, do mesmo estúdio de “Meu Malvado Favorito” (a Illumination), em pré-estreia nos cinemas.
Após a Illumination ter, em “Pets: a Vida Secreta dos Bichos”, trabalhado diferentes cores, ângulos e outras informações visuais, numa indisfarçável homenagem a Woody Allen e seu amor por New York, reforçando uma certa melancolia e prazer na vida ordinária, “Sing” nos remete a “Broadway Danny Rose” (1984), do cineasta americano.
O universo é muito parecido: o protagonista (um coala) é um agente musical fracassado que exibe um carinho legítimo pelos seus artistas. Allen sempre evocou o mundo do showbiz em seus filmes e, na maneira como “Sing” envereda pelos bastidores do funcionamento de um teatro e de um ensaio, também podemos lembrar de “Tiros na Broadway” (1994).
Evidentemente que o humor em Allen é mais ácido e, de alguma maneira, desesperançado, saudoso dos outros tempos. “Sing” versa basicamente sobre nunca desistir de seus sonhos e, com seu formato musical, é como se fosse um “Fama” animado, em que os personagens buscam vencer no difícil mercado da música enquanto enfrentam problemas cotidianos.
Assim como “Fama”, há uma competição, aumentando a ansiedade de todos para serem selecionados. Entre eles, estão histórias reconhecíveis de outros musicais, como o garoto de família pobre e criminoso, a dona de casa que se sente culpada por deixar marido e filhos de lado, um gângster de boa voz e lábia e a garota rebelde lutando contra o machismo.
Cada personagem está atrelado a um estilo, oportunidade para pôr em desfile antigos e novos sucessos. Curiosamente, surgem referências a um filme que não é do gênero: “De Volta para o Futuro” (1985), nas cenas em que o coala tenta ligar dois cabos de energia num momento capital e quando Ash insiste nos riffs de guitarra.
Um dos poucos senões é exibir macacos e gorilas em profissões menos privilegiadas, como garçons, criminosos, porteiros etc. Johnny, que tenta fugir da influência criminosa de sua família, é um gorila.