
Os artistas plásticos mineiros estão experimentando uma nova forma de compartilhar seus processos criativos através dos ateliês abertos ou comunitários. O que é, também, uma forma de reduzir custos com manutenção do imóvel, além de trocar experiências com colegas de ofício. A aposta na “tendência” se mostra perceptível através de espaços como o Galpão Paraíso, o Rio Doce 257, o Mama/Cadela e a Casa Camelo. Todos em Belo Horizonte.
Um dos integrantes da classe artística que investe nesta nova prática de socialização é Leo Brizola, “cliente” do Galpão Paraíso (rua Cachoeira Dourada, 44, bairro Paraíso). Na próxima terça-feira, das 15h às 20h, ele ocupará o espaço democrático para mostrar e falar sobre a sua exposição com quadros pequenos ou gigantescos – os “polípticos” – que são painéis formados por telas – alguns por até sete telas, como um quebra-cabeça. A mostra, com entrada gratuita, segue até o próximo dia 31.
Aos 52 anos, 36 de carreira, mesmo tendo seu ateliê particular, Brizola optou por terminar parte da exposição no novo ambiente, onde é “cada um na sua”, porém, sempre compartilhando experiências.
“É o único lugar que dá para pintar ‘grande’” conta o artista, que se inspirou na mitologia grega e fez uma reflexão sobre a história da pintura na série que expõe na próxima semana. Todas as altíssimas paredes do galpão – com mais de 300 metros quadrados e sem paredes divisórias internas – estão tomadas para a mostra. Tudo isso foi acompanhado por outros quatro artistas que dividem o espaço com Brizola.
“Temos todo tipo de fantasma criativo trabalhando ao lado de outras pessoas”, mistifica ele, acrescentando que a proposta coletiva permite ver outros artistas crescerem. “É uma renovação. Quando quero ficar só, volto para o meu ateliê”.
Atualmente, o Paraíso acolhe cinco artistas plásticos. Além de Brizola, está a pintora Babi Maia. “Tenho ateliê em casa, mas precisava beber inspiração de outros lugares”. Babi dedica-se a um trabalho de argila “viva”.
A “gestão da sensibilidade” do Paraíso fica por conta de outra artista plástica: Raquel Isidoro. O galpão foi disponibilizado pelo pai dela, o marmorista José Isidoro. “Aqui foi fábrica do meu pai, a ‘Pias Raquel’, depois oficina e depósito. Pedi a para ocupá-lo. Aqui, é tudo junto e misturado”, define a artista empreendedora.
Fundado há menos de um ano, o ateliê aberto, ou coletivo Galpão Paraíso, é mantido por uma diária paga por cada artista ocupante. A taxa é a partir de R$ 20.
Espaços podem abrigar outras formas de expressões artísticas
Nos últimos cinco anos, vários ateliês abertos começaram a ser ocupados por artistas de diferentes vertentes e plataformas na capital mineira. Um destes é o Rio Doce 257 – nome baseado na rua em que está instalado, no bairro São Lucas. Nele, outra artista plástica veterana dá asas à sua criatividade já de manhãzinha. Trata-se da artista plástica Cristina Marigo.
Mas por quê se juntar para fazer quadros? “A princípio, para dividir o custo do imóvel. E a nossa própria casa nem sempre é o ambiente ideal de trabalho, há alguns fatores que incomodam. Outro ponto é que meus quadros são de grandes proporções, alguns com mais de dois metros de largura”, justifica Marigo. No endereço citado, cumpre dizer, trabalham outros quatro artistas.
Cristina também enfatiza o compartilhamento de informações durante o processo com outras pessoas que falam a mesma língua que ela. “Venho trabalhar em um lugar com amigos, mas sem chefe e sem ter que bater ponto. E esta é a melhor parte”, brinca.
Dança, poesia e música
Outro ateliê de portas abertas reinaugurado recentemente é o Mama/Cadela (localizado na rua Pouso Alegre, 2048, no Santa Tereza). O nome curioso foi inspirado na denominação popular de uma frutinha do cerrado. Entre as atividades para o público, que já entraram em cartaz, estão a pintura de mural ao vivo e outras performances.
Mesclando socialização e a produção coletiva de arte, a Casa Camelo (rua Ulhoa Cintra, 90, Santa Efigênia) é outro espaço cultural de Belo Horizonte. A Casa abre espaço para criadores de diversos meios, da pintura à dança, do cinema ao teatro, da música à poesia, do desenho ao circo, na proposta conhecida como “ateliê heterogêneo”.