Atencioso com os fãs, Flávio Migliaccio é homenageado em Gramado

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 13/08/2014 às 11:23.Atualizado em 18/11/2021 às 03:46.
 (Cleiton Thiele)
(Cleiton Thiele)

GRAMADO (RS) – Flávio Migliaccio deixa claro aos fãs e turistas que eles podem lhe pedir autógrafos e selfies. E que todos serão atendidos. A razão desse aviso é a sua posição contra o “endeusamento do artista”, evidenciada em entrevista coletiva horas antes de subir ao palco do Palácio dos Festivais, onde recebeu, na noite de terça-feira (12), o troféu Oscarito do 42º Festival de Cinema de Gramado.

Prestes a completar, no próximo dia 26, oito décadas de vida, o ator paulista considera a sua profissão tão importante quanto a de um pedreiro ou eletricista. “Não gosto desse deslumbramento com a fama. Sou avesso a isso. O artista é um trabalhador como outro qualquer. A minha função é transmitir uma emoção, como a de um pedreiro é construir uma casa. É a única coisa que sei fazer”, registra o Seu Chalita do seriado “Tapas & Beijos”.

Contador de “causos” nato, Migliaccio ilustra essa sua posição com uma história real, protagonizada por ele quando viajava sozinho de carro por uma estrada do interior. “Estava no meu carro conversível, que é muito bom para mostrar o ator. A estrada estava deserta, e encontrei um sujeito correndo segurando uma tocha olímpica acesa. Ele estava indo para a festa de aniversário de sua cidade, onde era aguardado para subir no palanque”, recorda.

Para o corredor não ser atropelado, Migliaccio o seguiu até o destino, mas ao chegar à cidade, no momento em que fogos de artifícios começaram a espocar no céu, o ator roubou a cena. “O prefeito me viu e me puxou para o palanque. O homenageado passou a ser eu, esquecendo-se do cara da tocha. Eu apontava para ele, no meio da multidão, mas ninguém deu bola. Terminamos o dia bebendo juntos – ele por ter sido esquecido e eu por ter sido lembrado”.

É um claro exemplo, segundo ele, de como “às vezes o ator estraga a festa”, transformando uma “coisa boa, pura e bonita numa porcaria”. Esse episódio deve constar do documentário celebrativo que seu filho, Marcelo, está produzindo. Com uma câmera em punho, a coletiva foi acompanhada por ele, assim como a entrega do Oscarito. É a primeira vez que Migliaccio pisa na cidade turística gaúcha, cenário de um dos mais importantes festivais do país.

Ressaltando o seu gosto para “fazer as pessoas rirem” e diminuírem seu sofrimento, o que ocorreu com personagens marcantes como o mecânico atrapalhado Xerife (do seriado “Shazan, Xerife & Cia”) e o aventureiro Tio Maneco (protagonista de quatro longas-metragens e uma série de TV), o intérprete lembra que começou a carreira por acaso, quando foi expulso do colégio interno e estava desgostoso com Deus.

“Fui andando, sem saber o que fazer, e aí vi que, no fundo da Igreja, estava acontecendo uma peça amadora. Quando ela terminou, falei com o ator principal que seria capaz de fazer o que ele fez. Ele olhou para o lado, para ver se o padre estava por perto, e respondeu para eu fazer, porque já não aguentava mais aquele troco. Então passei a fazer o papel dele. E razoavelmente bem, ao que parece, pois o rapaz voltou e passou a imitar o que eu fazia”, relata.

Naquele instante teve início o seu flerte com a comédia, apesar da peça ser um drama. “Eu vivia um velho com bengala e, num determinado dia, sem querer ela afundou num buraquinho do palco. O público adorou. Isso passou a ser a minha salvação, colocando a bengala ali toda hora. Assim como o garoto...”, lembra Migliaccio. Como não tinha “muitos concorrentes nessa época”, três anos depois estrearia como ator profissional no Teatro de Arena.

Observa que foi o Teatro de Arena que, em 1959, criou os personagens realistas brasileiros que hoje estão nas telenovelas. “Estava todo mundo procurando o homem brasileiro nessa época. Como o teatro tinha apenas 155 lugares e o espectador ficava até meio metro próximo da gente, tínhamos qu falar da maneira mais simples possível”, assinala Migliaccio, que participou do Cinema Novo em filmes como “Cinco Vezes Favela” e “Terra em Transe”.

Lamenta, porém, que os cinemanovistas tenham buscado inspiração na Nouvelle Vague francesa no lugar do Neorrealismo Italiano. “Foi o nosso grande erro. Eu gostava do Neorrealismo porque misturava drama e comédia, que é como vivemos. Vim de uma família numerosa, com 16 irmãos, e, se a gente não brincasse, não aguentaríamos. Brincávamos até com a fome que sentíamos”, puxa da memória.

Migliaccio sente muita falta de um personagem como Tio Maneco na TV e nos cinemas brasileiros. “Nunca vi problema em fazer personagens fixos. Aliás, sempre persegui algo assim, diferentemente dos meus colegas, que querem fazer mocinhos, bandidos, padres etc. Não tenho essa vaidade. Queria algo que pudesse levar para a vida toda, como o Carlitos de Chaplin e o Cantinflas de Mario Moreno”, compara.

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado

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