Bienal de SP abre as portas com presença de mineiras

Clarissa Carvalhaes - Hoje em Dia
Publicado em 06/09/2014 às 14:51.Atualizado em 18/11/2021 às 04:06.
 (Divulgação)
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São Paulo recebe, a partir deste sábado (6), um dos mais importantes eventos da arte contemporânea do Brasil e do mundo.

Em sua 31ª edição, a Bienal de São Paulo reúne 81 projetos, dos quais participam mais de 100 artistas, autores de 250 obras a serem expostas.

Dentre os nomes convidados, duas mineiras marcam presença e fazem bonito: a belo-horizontina Marta Neves, que vive na capital e apresenta a instalação “Não-ideias”; e Tamar Guimarães, nascida em Viçosa e que há 12 anos reside em Copenhagen. Ao lado do dinamarquês Kasper Akhoj, a artista produziu o documentário “A Família do Capitão Gervásio”.

Há ainda o trabalho do indiano Prabhakar Pachpute – batizado “Nuvens Escuras do Futuro”. Nele, o artista dialoga diretamente com Minas Gerais, tendo como foco principal dos seus estudos a vida dos mineiros de carvão que trabalham no interior do Estado, como na cidade histórica Ouro Preto. Prabhakar é também o autor do cartaz oficial da Bienal deste ano, desenho que ilustra esta página.

Coisas que não existem

Nesta 31ª edição, o norte dado aos artistas foi o tema “Como (…) Coisas que Não Existem” – uma invocação poética das potencialidades da arte e da sua habilidade de refletir e influenciar na vida, no poder e na crença das pessoas.

A frase tem uma formulação variável, na qual o primeiro de seus dois verbos se altera – sugerindo as ações que podem ser suscitadas no mundo pelas coisas que não existem, que não são reconhecidas ou que ainda não foram inventadas.

“No entanto, os artistas não criaram seus projetos necessariamente a partir disso. Não impomos um tema, mas através de vários encontros foi discutida a relação genuína da arte contemporânea com as pessoas e com seu cotidiano”, explica Pablo Lafuente, um dos nomes a assinar a curadoria da Bienal.

“De forma geral, os trabalhos que compõem a Bienal pedem ao público que se aprenda com as coisas que não existem ou, se ele preferir, que se lute contra elas”, explica Lafuente.

“Nós acreditamos que a arte pode ser tudo, inclusive um instrumento de mudança. Ela não está incumbida de cumprir um único papel. A arte pode gerar diversos questionamentos e por meio dela podemos mudar o mundo”.

De acordo com o curador, mais da metade dos projetos que a partir deste sábado poderão ser vistos no Parque Ibirapuera foram realizados especificamente para esta Bienal – muitos por artistas internacionais que apresentaram trabalho em resposta a uma residência na cidade e à oportunidade de viagens adicionais pelo Brasil.
 

Obras de Tamar, Marta e Prabhakar representam Minas na Bienal

“Talvez tenha sido quando eu tinha três ou quatro anos e me sentava para escutar o marido da minha tia repetindo a mesma frase no piano por horas. Talvez tenha sido aos 13 anos, quando quis ser dançarina. Mas há também uma outra versão: como Belo Horizonte não tem praia, eu ia muito ao cinema – e haviam vários pequenos cinemas e cineclubes de filmes de arte pela cidade. Talvez tudo isso que eu viva tenha começado no escuro daquelas salas”.

A recordação é de Tamar Guimarães, artista mineira que trabalha com filme, som e instalações e está entre os nomes convidados a participar da 31ª Bienal de São Paulo. Para a mostra ela apresenta “A Família do Capitão Gervásio”, uma película em 16mm junto a peças de concreto e madeira. A primeira versão da obra foi produzida em 2013 para a Bienal de Veneza.

“O projeto gira em torno de uma comunidade espírita no interior de Goiás. Segundo ela, os espíritos intervém no mundo material, nos ensinam e nos transformam. Mas o subtexto do filme é também um indicativo de como práticas espíritas entraram em conflito com os movimentos oficiais de higiene mental e os códigos de sanidade e loucura”, comenta Tamar.

“Não há, de nossa parte, um movimento em direção ao misticismo, mas a noção do espiritismo como um fato social é importante. Nos interessa a prática diária, por exemplo, entre os espíritas que filmamos em Palmelo, de se abrir a aspectos daquilo que não se vê, cheira, ou toca. É uma aposta num mundo sutil e a busca de uma sensibilidade para aquilo que nos estremece. O filme é uma visão de tremor em conjunto”, explica a artista, que já não mora no Brasil desde 1987. “Viver de forma meio nômade é produtivo para mim”, justifica.
Sobre frustrações

A Bienal recebe também Marta Neves, que leva de Belo Horizonte seu “Não Ideias”: faixas com frases que abordam circunstâncias não resolvidas e que muitas vezes são encaradas como fracasso. “Somos cobrados por tudo, pelo sucesso sem fim. Temos a carga de um cotidiano que nos obriga a pensar como máquinas. Sempre precisamos estar criando, produzindo, mostrando algo. ‘Não ideias’ expõe as coisas que não deveriam acontecer de forma bem humorada”, explica a artista, que neste sábado (6), às 15h, apresenta dentro da Bienal a performance “Eu Não Sou Cantora Não”.

Manifesto contra patrocínio de Israel

Depois de receber um manifesto assinado por 55 dos seus 86 artistas (entre eles, israelenses, libaneses e palestinos), a organização da Bienal decidiu relativizar o apoio de Israel à mostra.

Já na entrada do Pavilhão, um aviso improvisado especifica que cada consulado apoia somente os artistas de seu país. O abaixo-assinado entregue na semana passada, exigia a saída de Israel do quadro de patrocinadores. O país investiu cerca de R$ 90 mil na mostra. O orçamento total foi de R$ 24 milhões.

Das cinzas do minério, Prabhakar faz sua obra

O artista plástico Prabhakar Pachpute nasceu e foi criado em uma região conhecida como “a cidade do ouro negro”.

Em Chandrapur, na Índia, se encontra uma das maiores e mais antigas minas do país, onde trabalharam três gerações da sua família.

“Neste contexto, o artista leva para suas obras as vidas dos mineiros de carvão e de suas lutas trabalhistas. Em cada trabalho ele procura transmitir o trauma e o impacto psicológico de se trabalhar nas entranhas da terra”, explica Benjamin Seroussi, curador associado da Bienal, que acompanhou de perto a produção do artista no Brasil.

Depois de assinar o pôster da Bienal, Pachpute criou “Nuvens Escuras do Futuro”, uma obra feita com carvão em três quadros gigantes. Eles podem ser vistos no hall principal do Pavilhão, instalados um sobre o outro, com o propósito de formar um único desenho. O trabalho ocupa os três andares do prédio.

“No primeiro andar está o passado, com os homens diante da natureza. No segundo, o presente, é retratada a prática da mineração, com uma montanha a rodear a cabeça do homem; e no terceiro, o desenho de montanhas destruídas pelas escavações mostram um futuro nebuloso”, explica Seroussi.

Ao descobrir Prabhakar, a Bienal convidou o artista para uma residência no país, que aconteceu ao longo do primeiro semestre deste ano. “Foi dessa maneira que ele pode conhecer as minas de carvão de Minas Gerais. O resultado pode ser visto a partir de hoje”.
 

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