
TIRADENTES – De ator com sotaque nordestino a produtor de set de um filme experimental dirigido por Paula Gaitán, viúva de Glauber Rocha. A lista de funções já desempenhadas por Leo Pyrata compreende praticamente toda a produção de um filme. Na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que encerra neste sábado (1°) a sua programação, seu nome aparece nos créditos de quatro filmes, em diferentes atividades.
“Sou um curioso”, explica esse ex-poeta anarquista e metaleiro, natural de Belo Horizonte, que se apaixonou pelo cinema em 2005 após sofrer um bloqueio criativo. Em pouco tempo, juntou-se a um grupo de jovens realizadores, ajudou a dar uma cara à novíssima geração do cinema mineiro e agora se vê requisitado por cineastas de outros Estados, como a parisiense (radicada no Rio de Janeiro) Paula Gaitán e o pernambucano Sérgio Oliveira.
Uma das primeiras cenas do longa-metragem “Amor, Plástico e Barulho”, dirigido por Renata Pinheiro e apresentado no primeiro final de semana da Mostra, exibe Pyrata numa cena de alta voltagem erótica, alisando o bumbum de Nash Laila. Ele avisa que a esposa ainda não viu o filme, mas garante que não levará puxão de orelha em casa. Afinal, deve à cinéfila Laura a sua entrada no mundo do cinema.
“Caí no cinema por acidente, por dois motivos distintos e muito próximos. Além do bloqueio criativo, era uma maneira de cortejar a minha esposa. Eu vim da música – do punk e do metal – e não tinha muito contato com o cinema. Mas sempre tive uma coisa muito forte com a literatura, escrevendo desde novo”, registra Pyrata, que ganhou esse apelido devido à suspeita de ter um olho de vidro, como os corsários da ficção.
Na verdade, Pyrata (ele prefere que seu nome de batismo não seja revelado) tem um olho de cada cor – um verde e outro castanho. “Quando a gente não gosta de um apelido, ele pega. Porém, passei a usá-lo para assinar minhas pichações em São Paulo. Vadiava muito por lá e não estudava. Meus pais eram muito pacientes. Espero que meu filho (Samuel, de quatro anos) não dê um décimo do trabalho que dei a eles”.
Grande projeto ainda está por vir
“Quero fazer cinema para mandar num tanto de gente”. Leo Pyrata entrou na Escola Livre de Cinema, em 2007, com esse pensamento, mas logo percebeu que estava “entendendo errado, achando que funcionava tudo na hierarquia e no delírio, com as pessoas tendo que se virar para fazer acontecer o que o diretor pedir”.
Depois de fazer um curta-metragem (“Retrato em Vão”, baseado no conto “O Retrato Oval”, de Edgar Allan Poe), que não sai mais da gaveta, ouviu opiniões “terrivelmente sinceras” de seus colegas. Foi quando entendeu que precisava ser menos grandiloquente, sem querer dar conta de uma coisa muito maior do que poderia.
Pyrata entrou no espírito independente e anárquico dos coletivos que se formaram e passaram a ganhar prêmios em festivais importantes. Um deles foi o curta-metragem “Contagem”, de Gabriel Martins e Maurilio Martins, que ganhou o principal prêmio do Festival de Brasília de 2011. Pyrata fazia um personagem vilanesco, chamado Marcos.
“Eu tinha muita referência de gângsteres, como os de James Cagney, Edward G. Robinson e Humphrey Bogart. Gostava muito desse tipo de bandido que não é 100% malvado e tinha um pouquinho de ternura. Foi o que fiz com o Marcos. O personagem me abriu muitas portas e, juntamente com os curtas que dirigi (“Elogio a Rimbaud” e “Filme Pornografizme”), passei a receber convites de fora”.
Após dividir quarto com Sérgio Oliveira, no festival carioca Curta Cinema, e enxergarem muita coisa em comum em suas proposições artísticas, Pyrata virou parceiro constante do realizador pernambucano. Após atuar em “Amor, Plástico e Barulho”, foi roteirista e assistente de câmera e direção em “Orquestra Arcoverdense de Ritmos Variados”, ainda inédito.
“Sou igual Bombril. Gosto de jogar em todas as posições”, salienta. Pyrata explica que essa polivalência é fundamental para entender o processo de um filme. “Ele nasce e morre várias vezes, primeiro com o roteiro, depois na produção e, por fim, na montagem. Queria logo dirigir, mas entendi que precisava antes dar conta dos desafios específicos de cada etapa”.
Mais do que cachoeira
Ele brinca com a máxima do pioneiro mineiro Humberto Mauro ao dizer que “cinema é mais do que cachoeira”, fazendo analogia com a pescaria. “É preciso ter atenção e paciência e depois saber lutar com o peixe para tirá-lo da água”, pondera Pyrata, que fará ainda neste ano a assistência de direção de Tiago Mata Machado em “Os Sonâmbulos”.
O grande projeto ainda está por vir, com a direção de seu primeiro longa-metragem solo: “Sub Bahia”, aprovado no edital Filme em Minas. O projeto é baseado em seu romance “Que Vida é Essa” e foi inscrito para ganhar a forma de um média-metragem. “Acabou ficando um pouco maior e deve virar um longa”, revela.
A história começa registrando o baixo centro de Belo Horizonte, região que Pyrata conhece bem, após ter morado muitos anos na rua da Bahia. “Ela será um personagem também, mas a trama possui vários níveis e desdobramentos, criando relações com arquitetura, filmes de gângster, fitas do tipo ‘woman in prision’ e ‘pink violence’, fonte que Quentin Tarantino bebeu bastante”.
Embora tenha feito filmes de propostas independentes e autorais, o diretor gosta de cinema de gênero. “Tenho vontade de fazer obras que as pessoas gostariam de assistir, de preocupação mais comercial. Me agrada trabalhar com algumas referências de adolescência, como ninja, espada e ficção-científica. É uma prestação de contas ao que me fez apaixonar pelo cinema”, avisa.
17ª Mostra de Tiradentes chega ao fim
O anúncio e a premiação dos vencedores desta edição acontecem neste sábado (1º), às 22h30, na cerimônia de encerramento, no Cine Tenda. Na sequência, o pianista Túlio Mourão se apresenta no Cine Tenda Bar. Muita coisa acontece antes disso. Às 13 horas, Érika Machado divide o palco com Fernanda Takai. Haverá sessões de curtas para crianças e adultos, em diferentes horários e locais. Dois longas terão estreia nacional neste sábado: “O Rio nos Pertence”, de Ricardo Pretti (17 horas), e “De Menor”, de Caru Alves de Souza (20 horas). Tudo de graça.