
Como uma explosão. Assim o poeta Carlos Nejar, ocupante da Cadeira nº 4 da Academia Brasileira de Letras, define o processo de escrita de “A Vida de Um Rio Morto: Monumento ao Rio Doce” (Ibis Libris Editora, 176 páginas, R$ 35), a ser lançado quinta-feira, no IDEA Espaço Cultural. “Tudo veio como um intuito. O livro se arrebentou dentro de mim, como se algo tivesse que vir à tona”, diz. Em três meses, a obra, que é um poema épico construído em dísticos (estrofes de dois versos) já estava concluída.
Tal inquietação surgiu a partir da catástrofe em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, que deixou 19 mortos e o Rio Doce em lama com o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em 5 de novembro de 2015. “Num penedo nos atava./ Ó Mariana, o que cala / No terror, de horda em horda? / A lama subindo as calhas / Se a morte nos põe sua corda, / Tiradentes quem escuta?”, indaga em um trecho da publicação.
Natural de Porto Alegre (RS), hoje, o autor vive em Vitória, no Espírito Santo, estado também atingido pelo desastre, que, assim como Mariana, foi rememorado no livro. “Ó terra que me acolheu,/ Terra do espírito e pranto/ (...) E não te poupou, repito,/ A lama, sórdido manto,/ Mas ao oceano violou./ E não poupará aos vivos./ Muito menos aos mortos,/ Que, sob a tumba, cativos,”, diz outra parte da obra.
Por trás da tragédia
Mais do que um ato de manifesto, o escritor declara o livro como um memorial para o Brasil e chama atenção para o que está por detrás da tragédia. “O rio é um herói, que alimentou tantos e por tanto tempo. Ninguém pode, impunemente, matar um rio. Nenhuma cobiça da indústria poderia ter matado um rio”, afirma.
Ele lembra ainda dos problemas causados pelo desastre. “Trouxe consequências para os ribeirinhos e pessoas foram enterradas. O barro matou animais sem defesa, matou a água, que se tornou insalubre, matou turismo, porque o rio ficou irreconhecível. Esse foi um desastre de negligência e imperícia e o Brasil inteiro sofre por isso”, considera.
Conforme Nejar, no livro, o Rio Doce também simboliza o povo, que é “doce, cordial, generoso”. “Mas, em regra, os políticos não são assim. E eles são os donos do barro, que acaba comendo a eles também, pois, de repente, a ‘Lava Jato’ avança sobre as empreiteiras...” desabafa. “O Brasil está invadido de barro, o barro da corrupção, da economia, nas instituições. O barro vai comendo tudo, não só o rio, mas todas as coisas e as formigas, que são os interesses, destroem toda a seara”, completa.
No lançamento do livro, o filho de Nejar, o também escritor Fabrício Carpinejar, fará um recital da obra ao lado do pai.
Serviço: Lançamento do livro “A vida de um rio morto: Um monumento ao Rio Doce”, de Carlos Nejar, quinta-feira, às 20h, no Idea Espaço Cultural (rua Bernardo Guimarães, 1200, Funcionários). Entrada: R$ 30 e R$ 15 (meia).