
Mesmo em um momento no qual a palavra “terroir” (a valorização do produto da terra, numa explicação mais simplificada) nunca foi tão pronunciada, a capital mineira assiste a uma proliferação de estabelecimentos dedicados à “comida gringa” – e muitos dos quais, ao chamado “american way of life”. E dá-lhe hot dogs, sanduíches com (muito) bacon, costelinhas ao barbecue e frango frito no balde.
“Ninguém é de ferro”, explica Júlio Anastácio, um dos sócios do Red Sports Bar, no São Pedro, uma das casas que fazem questão de afirmar no cardápio que tamanho é, sim, documento. “Chega o momento em que as pessoas se sentem no direito de se esbaldar, lambuzar e optar por uma boa comida ‘ogra’”, registra Anastácio, que uniu, em seu restaurante, duas paixões bem americanas: esportes e pratos em direção diametralmente oposta ao minimalismo.
No cômputo geral, o mercado está em franca expansão. Vários estabelecimentos afins, com pouco de tempo de inauguração, já viraram franquias e logo devem se espalhar lojas pela cidade, como a FranGO Fried Chicken, a Bacon Paradise e a Rock & Dog Dogueria. Outros, como o Eddie Fines Burger, já marcam presença em alguns shoppings. E o Divino Frango acaba de aportar no Anchieta, já colhendo sucesso.
Bruno Rabelo, que abriu a FranGO na Floresta no início do ano, confessa que se inspirou na americana KFC, maior rede de frango frito do mundo, em detalhes que vão de equipamentos e material do balde até o layout da loja. Dois meses depois, com fila de espera no lado de fora, Rabelo já pode comemorar. Agora prepara a abertura de um modelo express na Savassi. “Vamos buscar o cliente on the go, que não come no lugar, preferindo levar para casa”, destaca o proprietário.
Especializado em big sanduíches, que chegam a ter 25cm, a Bacon Paradise abriu suas portas há relativamente pouco tempo, no Anchieta. Sim, encontrar lugar lá, depois de certo horário, não é tarefa das mais fáceis. Entre os bairros que devem receber lojas franqueadas estão o Buritis, o Santo Antônio e o Ouro Preto. “Estamos estudando outras propostas”, revela Natielle Ferreira, criadora de pratos que, fazendo jus ao nome do estabelecimento, não economizam no bacon.
O sotaque brasileiro é permitido
A vontade de abrir uma lanchonete em que o bacon fosse o carro-chefe veio de um programa de TV norte-americano, intitulado “Man v. Food”. Também ajudou o fato de os amigos de Natielle Ferreira amarem as tiras de gordura suína “Tinham uma paixão absurda por bacon, tanto que um deles disse que seria meu cliente eterno se eu abrisse a loja”.
A empreendedora queria um cardápio similar àqueles vistos nas reportagens americanas. “Em Belo Horizonte não havia nada parecido, porque os hambúrgueres daqui são pequenos e com bacon de lombo. Passei a testar alguns sabores na cozinha de casa e deu certo”, relata.
No fim da reforma da loja na rua Montes Claros, que durou cinco meses, Natielle já tinha fechado o seu menu, com nove sanduíches e cinco petiscos. Ela sabe que o tamanho é um exagero, tanto que admite que são poucos os que conseguem comer um sozinho. No final de semana, a Bacon Paradise recebe, em média, 200 clientes.
VALOR DA SALSICHA
Na Rock & Dog Dogueria, no Cruzeiro, a procura foi tão grande que a lanchonete na rua Vitório Marçola não comportou a demanda, obrigando o proprietário Eduardo Rosa a abrir a sua segunda loja, na Prudente de Morais. Ele gosta de usar o termo “hot dog” para distinguir seu produto do cachorro-quente tradicional, que leva mais acompanhamentos.
“Assim como nos Estados Unidos, nós valorizamos a salsicha, que é o principal. No Brasil, ela nunca foi boa, qualidade que explica a razão de vir com tantos acompanhamentos. Lá fora, os hot dogs têm menos ingredientes misturados”, compara Rosa, que oferece nove tipos de salsicha premium na Rock & Dog – Viena, Frankfurt, apimentada, de vitelo, pinguim (salsichão), cordeiro com hortelã, frango com maçã, calabresa e linguiça.
O pão, outro ingrediente fundamental do cachorro-quente, recebeu um cuidado especial, sendo desenvolvido por um engenheiro de alimentos. “Ele é mais leve e não tão massudo, o que o torna menos calórico também. Apesar de ser um fast food, queremos oferecer um produto mais saudável possível”.
TEMPEROS NATURAIS
Bruno Rabelo confessa que, quando abriu a FranGO Fried Chicken, na Silviano Brandão, ficou preocupado com o quesito saúde.
Sua grande fonte de inspiração, a Kentucky Fried Chicken (KFC), é muito criticada pelo alto teor de sódio em sua comida. “Por isso buscamos usar temperos 100% naturais, além de oferecer saladas e sucos naturais”, afirma o empreendedor.
A costelinha pode ser acompanhada de molho de goiaba picante
Os proprietários do Red Sports Bar fizeram uma pesquisa no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para detectar carências no mercado gastronômico de Belo Horizonte, percebendo que a cidade não dispunha de uma casa que fosse além dos jogos de futebol e se dedicasse também a esportes internacionais.
“Só em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba havia restaurantes que passavam transmissões de rúgbi, basquete, beisebol e futebol americano”, diz Júlio Anastácio, responsável pela criação do cardápio baseado em costelinha ao molho barbecue e no Buffalo Wings (asinhas de frango fritas).
ABRASILEIRAMENTO
A busca desse menu surgiu como uma necessidade de se reproduzir a sensação de estar num estádio de verdade. O que inclui muita comida ogra. “Americano gosta muito desse tipo de lanche, servido em grande quantidade e comido com as mãos”, registra Anastácio, que realizou algumas adaptações para se adequar ao gosto do brasileiro.
Um exemplo é a costelinha, que pode ser acompanhada de molho de goiaba picante. No caso do tradicional Buffalo Wings, ele tirou da receita os talos de aipo e o creme azedo. “Não temos o costume de comer aipo e aqui não há parecido com o creme, uma espécie de iogurte”, justifica. Encontrou os substitutos ideais nas tiras de cenoura e no molho gorgonzola.