
Stepan Nercessian não chegou a ter contato próximo com o personagem que encarna, com sucesso, há dois anos nos palcos brasileiros. No máximo, lembra de “acenos e cumprimentos dos bastidores da produção”. Mas parece conhecer Chacrinha como poucos, tamanha a paixão com que fala deste que é, concordamos, uma “instituição da comunicação do país”. “A televisão era sonolenta, repetitiva, os apresentadores usavam smoking, tudo muito limpo”, lembra. “Ele chega como um borrão, invadindo aquele ambiente, som, imagem, os figurinos. Obrigou a televisão a criar uma linguagem para acompanha-lo”, diz.
Neste sentido, o ator e o apresentador, em diferentes ofícios, compartilhavam de um gesto caro à arte da representação: assumir a ficção ao mesmo tempo em que se joga com ela. Era assim com Chacrinha na tela carnavalizante da TV, é assim com Nercessian quando o encena no palco. “Ele rompeu a chamada quarta parede, enfiava o dedo na câmera, denunciava para a platéia que ela existia”, diz. Para ele, Chacrinha também dava a ver outras questões que se faziam ocultadas na mídia de ontem e de hoje. “Sua platéia no auditório era ‘ feia’, desdentada, pobre, ele mostrava um Brasil que não era mostrado. Nesse sentido, invertia uma lógica que impera até hoje: ao pobre resta o mundo cão. Aparece na TV apenas como escória, a violência, o crime, algo que parece não incomodar tanto assim as pessoas né? Já no programa dele, era aquela algazarra. A possibilidade de mostrar alguma alegria era motivo de críticas”, lembra.
Como se auto definia o apresentador, seu papel era de confundir, e não explicar, em um lugar– a TV– onde “nada se cria, tudo se copia”. Um ethos que parece sempre o deixar atual, permanente, quando pensamos nas transformações pelas quais passou o ambiente televisivo e audiovisual nos últimos anos. “Quem não se comunica, se trumbica”, dizia sua citação, usada frequentemente em cursos de comunicação. “Hoje em dia, ele seria um youtuber”, suspeita e atualiza Nercessian.
Tamanha grandeza percebida em Chacrinha exigiria, portanto, um espetáculo que dimensionasse isto. O musical se aloca bem aí. O formato, “uma superprodução cênica”, dirigida por Andrucha Waddington comporta mais de 60 canções, já foi assistida por mais de 2 milhões de pessoas no teatro e na exibição do espetáculo no Canal VIVA e completa em 2017 (data do centenário de Chacrinha) três anos em cartaz pelo país, garante a força destes números todos.
E exige um grande esforço do ator. “Ali no palco, as pessoas tem de acreditar no Abelardo Barbosa, na emoção daquele homem. Eu não posso
atrapalhar isso”, diz Nercessian. “Queria dar ao público o homem meio bipolar, que tinha cólicas nervosas antes de entrar no palco, o cara que não queria que o apresentador sufocasse o nordestino que lutava pela vida. Ele poderia ser um padeiro, um pedreiro. O que importava para o Chacrinha era ser um trabalhador"
Serviço: Chacrinha, o musical-Cine Theatro Brasil
04 de novembro (sábado) – 2 sessões – 16h30 / 21h
05 de novembro (domingo) – 16h
Preços:
Plateia - R$ 100,00 (20/09 a 15/10), R$ 150,00 (a partir do dia 15/10)
Plateia promocional - R$ 50,00
Capacidade: 1000 lugares
Duração: 2h40 (com intervalo)
Classificação etária: 12 anos