Cia. Mundana apresenta "O Duelo", adaptação de Tchekhov, no Espaço CentoeQuatro

Miguel Anunciação - Hoje em Dia
Publicado em 12/09/2013 às 08:24.Atualizado em 20/11/2021 às 21:53.

Contabilizando os intervalos, "O Idiota" cobrava ao espectador mais de sete horas de disponibilidade. Resistir a esse tour de force de ambição quase olímpica premiava com uma espécie de medalha imaterial os seguidores do FIT/BH 2012 – da qual aquela montagem tão singular da Cia Mundana foi um dos grandes destaques, indiscutivelmente. Acompanhar todo "O Idiota" proporcionava algo como um pódio.

O núcleo teatral paulista retorna a Belo Horizonte e ao Espaço CentoeQuatro, onde exibe "O Duelo" de quinta (12) até a próxima segunda (16) – afora sábado (14), em função dos altos decibéis que a Virada Cultural deverá desaguar na Praça da Estação. Os ingressos custam R$ 20 e R$ 10 (meia). E é o que se prevê de melhor no cartaz teatral da cidade no período, junto a "Os Gigantes da Montanha" do grupo Galpão, atração do Teatro Bradesco.

Dirigido por Georgette Fadel, respeitada e premiada como atriz e diretora, o espetáculo adapta o conto homônimo de um gênio, o russo Anton Tchekhov (1860-1904). Um dos mais brilhantes escritores e dramaturgos de todos os tempos.

Na trama, um casal radicado no Cáucaso, às margens escaldantes do Mar Negro, atravessa tempos de crise. Um cientista amigo e conciliador, mas convicto que os mais fortes sempre se impõem aos mais fracos, por razões banais desafia o marido a duelar. Mas o que tende a transformar-se em tragédia, o estilo poderoso de Tchekhov emoldura em ironia, sutileza e patética.

Para contar esta história aparentemente prosaica – que mescla elementos de épocas e locais na cenografia de Laura Vinci, nos figurinos de Diogo Costa (e nas peças isoladas de Alexandre Herchcovitch e Lino Villaventura) e a luz requintada de Guilherme Bonfanti –, a encenação requisita 3h20, somando o intervalo único de 15 minutos. Não é uma encenação itinerante, recurso que "O Idiota", aliás, explorava admiravelmente.

No elenco, nove atores de Rio e São Paulo: Aury Porto, Camila Pitanga, Carol Badra, Fredy Allan, Guilherme Calzzavara, Otávio Ortega, Sérgio Siviero, Pascoal da Conceição e Vanderlei Bernardino. Siviero e Bernardino se notabilizaram no grupo Teatro da Vertigem. Pascoal serviu muitos anos ao Oficina, de Zé Celso, aparece com frequência em comerciais de TV, e descreve na sua página no Facebook a turnê que a peça desenvolve pelo Nordeste, desde o início de agosto. Com estatura e vastidões de bom poeta.

Recursos da Caixa garantiram a montagem e a turnê, que se estenderá a São Paulo, e o governo do Ceará, os ensaios em três cidades do interior. Tão economicamente periféricas quanto o Cáucaso.

Um coletivo para ser fiel a outras estéticas e a outros parceiros

Cearense radicado em São Paulo, Aury Porto também serviu durante muitos anos ao Oficina e tem o orgulho de afirmar que "pôs fogo" para a concretização da versão toda peculiar de Zé Celso para "Os Sertões". Atuou nos cinco espetáculos teatrais que o clássico de Euclides da Cunha permitiu. "O Duelo" é co-produzido por Aury e Camila Pitanga, que viu "O Idiota" no Rio e adorou. E agora se junta à Mundana para experimentar do mesmo pão, da mesma bebida. Sem as regalias de estrela que ela se tornou.

Em 2007, enquanto ainda atuava no Oficina, Aury fundou a Mundana com Luah Guimarães. Para se permitir experimentar ser fiel a outros parceiros, a outras estéticas. Desde então, o coletivo produziu seis títulos: "O Idiota", de Dostoievski; "A Queda", de Camus; "Das Cinzas", de Beckett; "Pais e Filhos", de Pushkin; quatro atos de quatro textos de Tchehkov, dirigidos pelo russo Adolf Shapiro, de "O Duelo". Autores, sobretudo os russos, que espelhariam com perfeição como o bicho humano pode ser grandioso e horrível.

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