Ciclo de conferências reúne, em BH, pensadores do Brasil e da França

Patrícia Cassese - Hoje em Dia
Publicado em 12/08/2015 às 07:22.Atualizado em 17/11/2021 às 01:19.
 (Alessandra Fratus/divulgação (wisnik) e personal press/divulgação (adauto))
(Alessandra Fratus/divulgação (wisnik) e personal press/divulgação (adauto))

Um tema dos mais instigantes norteia o novo “Ciclo de Conferências”, idealizado e dirigido pelo filósofo Adauto Novaes, que tem início nesta quinta-feira (13), na capital mineira: a utopia. “Mutações: O Novo Espírito Utópico” reúne – até 22 de setembro, sempre às segundas e terças, às 19h, no BDMG Cultural – pensadores do Brasil e da França.

“Em poucas palavras, podemos dizer que a utopia é uma representação imaginária da realidade. Mas isso não quer dizer que, na utopia, vivemos apenas no plano do imaginário. A utopia consiste em acreditar em transformações possíveis que nos levam a ações reais”, diz Adauto.

Ele lembra palavras do filósofo Francis Wolff, que abre a programação em BH, sobre a necessidade das utopias. “As utopias são para as comunidades o que os sonhos são para os indivíduos.... Sim, toda comunidade, toda época, toda geração tem necessidade de utopias”.

Refúgio

Uma utopia, prossegue Adauto, é, pois, um refúgio quando o real parece insuportável. “Ora, durante meio milênio, esta bela palavra, que quer dizer ‘não lugar’, mas também se pode traduzir por ‘eutopia – lugar da felicidade’, significou promessa, esperança, simulação antecipadora, horizonte de nossos desejos, e sobretudo ‘a severa e lúcida crítica da realidade’. O fundamento da utopia é, pois, a crítica do presente”.

O ciclo deste ano terá início, simultaneamente, também no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Muitos dos conferencistas participam dos ciclos há anos”, conta Adauto. Há também novos pensadores, do Brasil e do exterior. “Eles formam o ‘núcleo duro’ permanente que se dedica a esclarecer as mutações por que passa o ocidente. Nossa hipótese é que o que acontece hoje não é uma crise, mas uma verdadeira revolução tecnocientífica, que muda radicalmente o estado geral das coisas: política, mentalidades, costumes etc”.

Filósofo, jornalista e professor, Adauto Novaes foi, por 20 anos, diretor do Centro de Estudos e Pesquisas da Fundação Nacional de Arte, do Ministério da Cultura. Em 2000, fundou a Artepensamento. Os ciclos de conferências que organizou resultaram em vários livros de ensaios.

“Mutações: O Novo Espírito Utópico” – Dessa quinta-feira (13) a 22/9, às 19h*, no Auditório do BDMG (Rua Bernardo Guimarães, 1.600). Conferências às segundas e terças-feiras. *A de abertura acontece excepcionalmente nesta quinta-feira (13), às 18h. Leia, no Portal Hoje em Dia, a íntegra da entrevista

PINGUE-PONGUE COM ADAUTO NOVAES

Em linhas gerais, quais são as novas formas de utopia?

Se utopia é permanente desejo de emancipação, ela deveria estar em todos os espaços e em todos os momentos: na política, no trabalho, nas afetividades, nas escolas etc. para a construção de uma vida em comum de liberdade.

Por que afirma que "a sociedade atual despreza e faz pouco da utopia"?
A nossa sociedade tende a desprezar a utopia por várias razões: primeiro, porque a política conservadora quer o mundo tal e qual e, para isso, insiste em identificar a utopia, de maneira deliberada e de má fé, com as desastrosas experiências políticas do “socialismo real” que nada tinham de utópicas; segundo, porque, se é próprio da utopia pensar o social em toda a sua amplitude, criar um espírito de comunidade, como imaginá-la em um mundo no qual predomina o individualismo exacerbado, mundo descrito por Musil como o “egoísmo organizado”, ou, o mundo do “espírito de butique universalmente expandido” como diz Engels no texto sobre a utopia de Fourier no Anti-Dühring? Como pensar, enfim, a utopia quando vemos o predomínio de nova forma de determinismo expresso no controle e no autocontrole através dos novos meios eletrônicos, que impedem o individuo de desenvolver sua singularidade e sua imaginação?


Da mesma forma, por que diz que, sem o pensamento utópico, o mundo não vive?

Vemos, hoje, a construção de certo silêncio não só sobre o desejo utópico como também um triste silêncio em torno do pensamento sobre a utopia. Por que este silêncio que “faz pouco caso de toda uma tradição da filosofia política moderna”? O silêncio encobre nosso desejo de emancipação e isso é uma grande novidade. Muitas são as causas deste silêncio, mas uma delas é predominante: vivemos uma mutação em todos os domínios da atividade humana, verdadeira revolução produzida pela tecnocientífica, pela biotecnológica e pelo digital. A mutação resulta, pois, não a partir das grandes promessas utópicas dos ideais humanistas e isso explica, em parte, porque ela se dá no vazio do pensamento; ora, “a ciência não pensa”, dizia Heidegger. É como se a mutação tecnocientífica se expressasse assim: para criar o novo é preciso destruir um mundo; para isso, comecemos por destruir seu pensamento e suas utopias.

O desaparecimento eventual do elemento utópico deixa um vazio também no espaço político. A triste realidade da política – escreve Wolff – pôs fim às esperanças do político: a vida política real trabalha contra o sentimento de pertencimento a uma coletividade: A ‘política’ perdeu os ideais utópicos e transformou-se em simples estratégias de conquista e exercício de poder, em expedientes. A política em nossos dias é o contrário absoluto do idealismo, quase sua perversão. O ciclo de conferências Mutações – O novo espírito utópico promete romper este triste silêncio.

Para quem está se enfronhando no assunto "utopia", que livros indicaria?

Alguns livros: Utopia, de Thomas More; O espírito utópico, de ErnstBloch; A utopia, de Norbert Elias; A Utopia de Thomas More a Walter Benjamin, de Miguel Abensour.


Outros convidados do “Ciclo Mutações”: os ensaístas José Miguel Wisnik e Marcelo Coelho, o historiador Marcelo Jasmin, o crítico Jorge Coli, a psicanalista Maria Rita Kehl, o físico Luiz Alberto Oliveira e o professor de filosofia Vladimir Safatle, entre outros

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por