Em 1999, quando recebeu um Oscar honorário, o diretor Elia Kazan (1909-2003) foi vaiado por uma parte da plateia e aplaudido por outra. Essa divisão, provocada por sua atitude em delatar, na década de 50, colegas comunistas à Comissão de Assuntos Anti-Americanos do Congresso, está refletida no cerne de sua obra.
A partir desta sexta-feira (18), quando começa, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes, a retrospectiva completa dedicada a um dos maiores realizadores do cinema americano, o público encontrará personagens sempre em crise com a sociedade e com eles mesmos, oferecendo mais de uma leitura para as suas ações.
Talvez por sentir, na pele, a extensão de seus atos, Kazan foi o cineasta que melhor levou para as telas a alma desfigurada de pessoas às voltas com desordens de toda ordem: do clássico conflito entre pais e filhos ("Vidas Amargas", de 1955) ao preconceito racial ("O que a Carne Herda", de 1949), passando pela própria delação.
Tabus
Dois anos após passar uma lista de simpatizantes esquerdista à comissão chefiada pelo senador Joseph McCarthy, Kazan transportara o assunto para o cinema, em "Sindicato dos Ladrões" (1954), que conta com uma das melhores interpretações de Marlon Brando, com quem tinha trabalhado em "Uma Rua Chamada Pecado", de 1951.
"Independentemente da postura dele fora das telas, Kazan nunca se furtou a tocar em questões tabus. Ele trabalhou quase que exclusivamente com a lógica e a essência humanas", destaca Ursula Rösele, assessora da gerência de cinema da Fundação Clóvis Salgado.
Imersão
Outro ingrediente que salta aos olhos na obra de Kazan é a direção de atores. Ursula registra que o diretor foi um dos criadores, em 1947, do Actor’s Studio, que lançou o "método", técnica que estimula a imersão do ator no personagem a partir de proposições de Konstantin Stanislavski.
"Algumas das atuações mais memoráveis do cinema estão nos filmes dele, quando o cinema americano vivia o fim do star system e sofria os reflexos do crescimento da televisão. Kazan levou o método do teatro para cinema, estimulando uma interpretação cheia de camadas", assinala.