Preocupado com o formato incomum de sua palestra, Apichatpong Weerasethakul insistia com o público presente no Cine Humberto Mauro, na segunda-feira (4), para “pensar menos como filme do que como um jogo”, receando que os espectadores ficassem constrangidos em tecer perguntas durante a projeção de “Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas”, ganhador do Festival de Cannes de 2011.
O medo do diretor tailandês, em visita ao país pela primeira vez, se mostrou logo injustificado. Menos de dois minutos do início da projeção, o primeiro celular com o visor aceso – a forma combinada previamente para identificar os formuladores e dar pause no filme – foi levantado. E não parou mais. As perguntas se sucederam uma atrás da outra, raramente voltando os olhos para a tela novamente.
Extremamente tímido, a sensação atual do cinema mundial talvez tenha apostado nesse formato para se esconder no escurinho do cinema (apenas um foco de luz sobre a mesa, onde também estava a intérprete) e ajudar a quebrar o gelo do público, que, sem uma identificação clara, estaria livre para fazer qualquer tipo de indagação. Curiosamente, a primeira questão envolvia a fotografia escura da sequência de abertura de “Tio Boonmee”.
Na tela, animal parecido com um boi caminha por uma floresta à noite. Weerasethakul desfaz a magia da cena, destacando que ela foi feita durante o dia e que a impressão noturna se deve há uma técnica chamada “noite americana”. Lembra que, como aconteceu em “Mal dos Trópicos” (2004), recorreu a mais de um diretor de fotografia para buscar novas referências dentro do filme, sinalizando para uma mudança narrativa.
Ele precisou se formar em arquitetura para poder realizar o sonho de ficar atrás das câmeras. Como não havia incentivo para a produção cinematográfica, a carreira nesse segmento era uma incógnita. Mas as pranchetas ajudaram muito em sua concepção imagética: “Fui muito influenciado pelo movimento desconstrutivista. Mais tarde, as artes visuais assumiram esse papel, assim como o budismo, não como religião e sim como conceito”, assinala.
Nesse mistura de referências, seus filmes ganharam um estilo peculiar, mesclando folclore, política, fantasmas e realidade social. O fascínio pelo mundo fantasmagórico, por sinal, vem da época de criança. “Na Tailândia, é muito comum acreditarmos em espíritos, especialmente nessa idade. Tudo passa a ter espírito, das árvores ao animais, cada um com um nome diferente. Quando adultos, mesmo não acreditando mais, é difícil se livrar disso”.
A entrada em cena de uma espécie de macaco – que muitos brincam dizendo ser a reencarnação de Chewbacca –, que estampa o cartaz do filme, não tem nada a ver com a teoria da evolução de Charles Darwin. “Tive um sonho com esse ser, quando era criança. Ele ficava flutuando sobre o quarto, com seus olhos vermelhos. Misturei esse elemento com histórias e fábulas da minha terra”, detalha o realizador.
Muitos filmes de Weerasethakul são passados no interior da Tailândia. É onde o cineasta se sente mais à vontade. Em passeio pela Serra do Cipó, no domingo, ele identificou semelhanças na vegetação com sua terra natal. “Não gosto de cidades grandes. Prefiro estar próximo da Natureza”, admite. Sua forma de relacionar com o mundo contamina por completo seus projetos, recheados que são de imagens de infância. Boa parte, porém, tem uma apropriação sutil.
É o caso do personagem que faz diálise em casa, em “Tio Boonmee”. Apichatpong viveu essa realidade quando seu pai teve problemas renais e realizava de três a cinco sessões, com a ajuda do filho. A questão política se evidencia ao mostrar imigrantes do Laos e da Birmânia. “Os tailandeses são muito nacionalistas. A palavra lao quer dizer não sofisticado, pobre. Pus isso no filme como uma forma de reflexão, mas não é a questão principal”.
A princesa que entrega a sua virgindade para um peixe também tem uma leitura sócio-política. “Ela reflete as pessoas que não se sentem adequadas no mundo. Isso aconteceu no período comunista, nas décadas de 60 a 80. Não tínhamos outra opção”, afirma o diretor, que sempre carrega um caderninho para registrar suas ideias. “O processo de escrita, no entanto, é curto. Em dois meses, já tenho um texto para ser filmado”, revela.
O que não quer dizer, é bom que se diga, que o roteiro não ganhe uma vírgula sequer ao gritar ação no set. Apichatpong registra que os personagens e as situações são ajustadas à realidade das locações e aos atores. “Fazemos muito ensaios e viajo com eles para os lugares, deixando a câmera constantemente ligada de forma que ela não seja tão percebida mais durante as filmagens”, descreve.