A trama não importa muito em “Blow Up – Depois Daquele Beijo” (1966), clássico dirigido pelo italiano Michelangelo Antonioni na Inglaterra e que está sendo relançado nos cinemas pela distribuidora mineira Zeta Filmes.
O que interessa está em se entorno, na maneira como o realizador exibe questões pertinentes a uma época (os movimentos estudantis, a contracultura) e que hoje permanecem válidas, como o valor dado às coisas e às pessoas.
O universo é a moda, com a sua pompa e beleza, e o protagonista é um fotógrafo arrogante, que usa as pessoas por conta de sua posição e as descarta com o tempo de um click, mudando de opinião pelo simples prazer de incomodar.
O personagem, vivido por David Hemmings, é muito próximo dos charmosos anti-heróis da Nouvelle Vague, como o Jean-Paul Belmondo de “O Acossado” (1961), por sua postura permanentemente confrontadora.
Há um acontecimento que poderia mudar os rumos da história, conduzindo-a a elementos caros ao gênero policial – mortes e mulheres misteriosas. Poderia, pois seus desdobramentos são sistematicamente abortados.
Um diálogo parece resumir esse pensamento, quando o fotógrafo é indagado sobre quem seria o morto que ele fotografou casualmente num parque. “Alguém”, responde simplesmente, meio desinteressado.
O que está em questão, em contraponto aos modismos que levam a contracultura a se tornar um produto assimilado pela indústria de massa, é o valor da obra de arte, que transcende o próprio artista que a criou.
A todo instante o fotógrafo diz não ter visto nada que ocorreu no parque. Foi a fotografia que o revelou, oferecendo uma compreensão que ele desconhecia, com tudo mais sendo ocupado pela imaginação.