Presente nas principais listas dos dez melhores filmes de todos os tempos, o francês “Hiroshima, Mon Amour” retorna às telas, nesta quinta, 58 anos após o seu lançamento num outro contexto, em que a fricção entre documentários e ficções são mais frequentes e a questão da imagem passa por um processo de banalização.
Isso fica claro quando vemos as fotos e as imagens dos estragos provocados pela bomba H em Hiroshima e Nagasaki, no final da Segunda Guerra. Elas ainda impressionam, mas não como um valor em si. E sim pela costura com a narração da personagem de Emmanuelle Riva, revelando um texto ainda vigoroso de Marguerite Duras.
O diretor Alain Resnais, esteta das relações entre espaço e tempo em filmes como o que ajudou a oxigenar o cinema francês na década de 60, ao lado de François Truffaut e Jean-Luc Goddard, foi um dos primeiros realizadores a usarem as cidades bombardeadas como cenário, ainda sofredoras das consequências da tragédia.
Esse frescor, como a Roma filmada por Roberto Rossellini em “Roma, Cidade Aberta” logo após o conflito mundial, não perdeu a sua força, na maneira como Resnais parte do documentário, do macro, para falar de uma tragédia ficcional particularizada – a de uma atriz (Emmanuelle) que se abre completamente a um desconhecido.
E esse “abrir” é o que o filme tem de mais vivo, quase 60 anos depois. É a construção moderna dessa personagem que nos conduz, uma mulher casada que se aventura por alguns dias com um arquiteto japonês (Eiji Okada), também casado. A primeira imagem é de seus corpos entrelaçados, praticamente indistinguíveis.
A firmeza como ela se apresenta é ressaltada pela beleza fascinante de Emmanuelle e pelos diálogos escritos por Marguerite. Mas à medida que ela abre sua memória para o amante, a respeito de sua tragédia pessoal, se fragiliza. Talvez tudo tenha sido representação, com o arquiteto reconstruindo essa pessoa diante de si.