O jaleco branco e o estetoscópio em volta do pescoço não deixam dúvidas. Mas, muito além do rol de seus pacientes, o médico Augusto Coutinho costuma ser procurado, em seu consultório, localizado na Rua Guajajaras; por pessoas que, curiosamente, não reclamam de problemas do coração, a sua especialidade.
“Muitos vêm aqui só para tirar dúvidas de português, perguntar sobre o que acho da redação da filha ou, simplesmente, para conversar sobre poesia”, observa Coutinho, que, vale dizer, nunca escreveu um livro. Muito menos atuou como professor de Português.
A razão dessa procura está nas paredes do seu consultório. Ou melhor, nos 843 dicionários espalhados por todos os cantos, ali. A paixão iniciada na adolescência, com um dicionário na língua pátria, hoje se estende para todo tipo de reunião de verbetes, nos mais diferentes idiomas. Apreço que, em tempos de sites de busca, é digno de nota.
Estão ali obras raras, como a edição fac-símile do livro de Antônio de Morais Silva, publicado originalmente em 1789, um dos mais reconhecidos dicionários de língua portuguesa, que compartilha a mesma estante de detalhados compêndios sobre injúrias, gírias, cachaça, morcegos e até mesmo palavrões – no caso, escrito pelo pernambucano Mario Souto Maior.
“Os mais exóticos (dicionários) são feitos por americanos. Parece que não têm mais nada a fazer”, diverte-se o espirituoso médico, que ainda não procurou os editores do Guinness Book (o famoso livro dos recordes), mas tem 99,9% de certeza de ser o maior detentor particular de dicionários do país. Coutinho nunca deixou de comprar um, mesmo sendo alguns bem polêmicos. Com tanto conhecimento sobre esse segmento literário, Coutinho espera escrever seu próprio livro – um dicionário sobre... dicionários.
Em busca do significado além das coisas
Aquele velho hábito de folhear um dicionário sem compromisso, em busca de palavras desconhecidas, está chegando ao fim. O grande vilão é uma caixinha em branco ao lado do ícone “buscar”, uma das ferramentas mais acessadas no mundo virtual.
O perigo da substituição do dicionário em papel pelos softwares de pesquisa não se resume apenas à queda de sua popularidade nas livrarias. “Ele traz elementos que completam a nossa formação cultural”, registra o produtor cultural Afonso Borges.
Criador do projeto “Sempre um Papo”, Borges sublinha que a função do dicionário não é apenas saber o significado de uma palavra. “A sua origem está no sentido das coisas. Ou melhor, no significado além das coisas”.
Para Borges, cada vez que se busca uma palavra, você encontra várias outras que estão relacionadas. “O que acontece? Aprendo todos os dias”, afirma. Recentemente ele foi a uma megastore em busca de dicionário e encontrou apenas minidicionários na estante.
Insistiu com os vendedores até que apontaram um dicionário Houaiss completo embaixo de outros livros encalhados. “O que acontece quando há perda de significado? A gente passa a falar e ouvir mal. Há uma cascata de consequências na escrita e na fala”, lamenta.
O produtor, porém, é otimista sobre um possível retorno de antigos hábitos roubados pela tecnologia. “A vida é cheia de idas e vindas. Tenho a ilusão de que, quando esse modelo se esgotar, as pessoas voltem, por exemplo, a ir para a Serra do Cipó e permaneçam horas sem interatividade”.
O escritor Humberto Werneck tem vários dicionários disponibilizados em seu computador, mas não abre mão do papel. “Sou tarado por dicionário. Antigamente brincava de dizer uma palavra para os outros adivinharem seu significado”, recorda.
Essa “tara” pode ser medida em suas crônicas, muitas delas com o dicionário como protagonista. Numa delas enumera nomes de pessoas que são verbetes. “Guilherme, por exemplo, significa instrumento de marcenaria. E só descobri isso procurando no dicionário”.
Do filólogo Antônio Houaiss (criador do dicionário que leva seu sobrenome), Werneck ouviu que a língua portuguesa é uma das mais ricas do mundo, com mais de 400 mil palavras. Mas o brasileiro não apreende mais do 3 mil.
Praticidade e concisão nos dicionários virtuais
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coeditor da primeira edição do dicionário Houaiss, lançada em 2001, Mauro Villar reconhece os efeitos destrutivos provocados pela internet no universo dos dicionários.
“Ela trouxe um novo universo para a lexicografia e alterou a relação das editoras com o mundo econômico, com as mais tradicionais fechando na Europa e outras tendo que abrir seus dicionários na internet”, registra.
Sobrinho de Houaiss, Villar salienta que os dicionários virtuais ganharam praticidade e concisão, atendendo às perguntas mais básicas. “Mas deixaram órfãos aqueles que se interessam pela lexicografia mais aprofundada”.
E admite que hoje não seria possível montar uma equipe de 200 pessoas para preparar um dicionário por 15 anos. “Um projeto como esse é absolutamente impossível. Não há dinheiro para fazer isso”, assinala.
‘Se não adaptar, você morre’
O Instituto Houaiss só lançou uma edição de sua versão completa em papel. “Tivemos uma venda espetacular na época. Mas quando fomos preparar a segunda, veio a reforma do acordo ortográfico. Refizemos tudo, mas já não era mais possível imprimi-lo, por ser caro”, explica o diretor Mauro Villar, que transpôs seu material para a internet. “A lei geral da vida é a adaptação. Se não adaptar, você morre”, afirma.