Com filosofia do alimento “bom, limpo e justo”, líder do slow food chega a BH

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 28/07/2015 às 08:16.Atualizado em 17/11/2021 às 01:07.
 (Flávio Tavares)
(Flávio Tavares)

“Slow Sex”, “Slow Travel”, “Slow Fashion”, “Slow Cinema”... O pensamento “slow” foi criado há quase 30 anos, com o chamado “Slow Food”, mas, hoje cabe em tudo. O movimento foi fundado pelo jornalista italiano Carlo Petrini que desembarca no Brasil para visitar várias cidades, entre elas, BH – nesta terça-feira (28), na Casa Fiat.

Na ocasião, Petrini lança o aplicativo “Slow Food Planet”, com 847 dicas no Brasil, incluídas em 12.500 no mundo, de onde comer, comprar e passar o tempo livre, tudo à maneira “slow”. Basicamente, ser “slow” é saber “degustar” os momentos da vida com tempo e espírito sócio-responsável.

O movimento surgiu em contraposição ao termo “fast food” e se tornou uma associação internacional em 1989. Hoje, são mais de 100 mil membros apoiadores em mais de 150 países.

Abaixo aos sintéticos

O movimento defende o direito ao prazer na alimentação e a utilização de produtos artesanais produzidos com atenção nos impactos ao meio ambiente e à saúde dos produtores. Por ele, a “padronização do alimento” se tornaria coisa do passado.

É nisso que o comerciante Cássio Avelino crê. Ele é um dos associados ao Slow Food, em BH. Mas desde a época de estudante de economia, pesquisa o trabalho de comunidades extrativistas no Norte de Minas.

O que aprende desde aquela época, aplica hoje na loja que criou, a “Néctar do Cerrado”, no Mercado Distrital do Cruzeiro. Cássio Avelino, também foi professor na disciplina de Gestão em Política Pública, mas, hoje, na linha do “slow”, a política que faz é outra: “Trago para a minha loja produtos que jamais desfilaram em gôndolas de supermercados”. Entre as preciosidades, estão 15 produtos derivados do pequi – os xodós dele. “Minha infância foi neste bioma”.

O pequi e outras dezenas de produtos brasileiros estão em lugar de honra em uma lista do Slow Food chamada “Arca do Gosto”. Neste “catálogo mundial” de sabores esquecidos pela grande indústria também estão a castanha de baru, que Cássio traz em fartura de fibras e proteínas na foto acima.

 

Hoje em Dia

Algumas das "pérolas" gastronômicas da Arca do Gosto, na Néctar do Cerrado


Slow “tudo”

O “Cittaslow” (“Slow Cities”) foi fundado na Itália em 1999, pelo ex-prefeito Paolo Saturnini. O movimento divulga ideias ligadas ao meio ambiente e à atuação comunitária para o bem estar nas cidades.

Outra linha de pensamento dentro do “devagar e sempre” da vida é o “Slow Travel”. A proposta – vendida inclusive por agências pelo mundo – é fazer viagens contemplativas e de imersão na cultura – que é mais importante do que ter um passaporte lotado de lugares onde você só foi para comprar um chaveirinho.

Já o “Slow Cinema” ou “cinema de contemplação” é um movimento que explora longos silêncios e planos de longa duração nas filmagens. E, quem diria? Até no sexo, a onda “slow” chegou. O “Slow Sex” foi criado pela californiana Nicole Daedone. E “pegadores” do mundo, aprendam com a gringa: envolvimento de qualidade, sem pressa, é melhor do que quantidade.

Minas gerais é um campo fértil para o slow food

Em Minas Gerais, o campo para a filosofia do Slow Food é dos mais propícios. “Nossa cultura alimentar reflete a essência do que defendemos. Há receptividade e o prazer em compartilhar a comida na cultura mineira”, lembra o gastrônomo e facilitador da Regional Sudeste, do Slow Food, Marcelo Podestá.

Ele explica que, no estado, há uma relação forte com a terra e com os produtos que ela oferece, além da tradição de consumo de uma grande diversidade de folhas e frutos, da riqueza de receitas e tradições, e uma relação próxima com os animais. “Falta somente nos reconectarmos a essa dimensão onde ela está enfraquecida”, indica.

Esta “reconexão” é o trabalho “autônomo” que o comerciante Cássio Avelino faz. “Minha loja é um estilo de vida. Eu não vendo somente um produto. Eu vendo a história dele também, que é conseguida com minha pesquisa sobre as comunidades e os modos de produção”.

Entre os clientes, chefs de todo país e pessoas que sabem pagar o valor justo por um produto que não passou por uma grandiosa linha de produção. “A garrafa de meio litro de azeite de babaçu custa R$ 30. Tem sabor de amêndoas e serve para frituras”, indica.

Antes de aderir e trabalhar pelo Slow Food, Podestá viveu esta transformação educativa, ao conhecer o movimento na Itália. Conhecendo produtores do mercado de lá, descobriu o que os reunia: a relação especial com a terra, seus frutos e processos.

“Foi meu clique para entender como nossas escolhas alimentares definem profundamente o ambiente ao nosso redor e a nossa relação com a terra e com as pessoas”, admite.

Slow fashion

Dentre as vertentes da filosofia “slow”, uma delas tem uma entusiasmada defensora em BH, porém na moda: Bruna Miranda, “consultora pessoal para um guarda-roupa sustentável, prático e eficiente” (foto abaixo).

A jornalista é idealizadora do projeto Review Slow Lifestyle, e diz que o “slow fashion” já está disseminado em todo mundo. O movimento de moda sustentável foi criado pela professora de Design Sustentável do britânico Centre for Sustainable Fashion, Kate Fletcher. Inspirado onde? Assumidamente no movimento Slow Food.

 

Com filosofia do alimento “Bom, limpo e justo”, líder do slow food chega a BH

Da comida para o guarda-roupa, que pode ser sustentável, prático e eficiente

Entre as práticas e produtos preferidos dos entusiastas do slow fashion estão o uso de tecidos ecológicos, a valorização de produtos locais e a adoção de uma nova mentalidade de consumo, entre outras soluções simples. Bruna confirma a ampliação da conscientização e diz: “A moda é o ‘slow tudo’”

Mas, seja na moda ou na alimentação, como mudar hábitos? Para a engenheira agrônoma, integrante da Comissão de Produção, Comercialização e Consumo da Amau (Articulação Metropolitana de Agricultura Urbana), Luana Santos Dayrell, entre um sanduíche de uma rede fast food e/ou o salgadinho e uma alimentação saudável, vê-se a existência de uma lacuna muito maior do que a simples decisão da pessoa por se alimentar bem.

Para ela, esta lacuna está relacionada aos processos de educação, ao acesso aos alimentos, aos incentivos aos “quitandeiros” e à própria distribuição de renda.

“Seminário Gastronomia Sustentável como Valorização das Culturas Regionais”– Nesta terça-feira (28), 8h30. Casa Fiat (Praça da Liberdade, 10). Evento da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria de Minas Gerais em parceria com o Slow Food BH. Inscrições gratuitas no: italiabrasil.com.br

 

Três perguntas para Carlo Petrini

“O atual sistema alimentar, com base no lucro e no livre comércio, causa muitos danos”

HD – O Brasil é um terreno fértil para o Slow Food?
Petrini – Na verdade, todos os lugares do mundo são solos férteis para promover o conceito Slow Food. Isso porque o atual sistema alimentar, com base no lucro e no livre comércio, causa muitos danos diferentes em todos os cantos do mundo. Hoje em dia, milhões de pessoas ainda estão sofrendo de desnutrição, enquanto outras são “hipernutridas” e sofrem de diabetes, doenças cardíacas.

E sobre o desperdício?
Todos os anos, em todo o mundo, desperdiçamos 40% da produção e, na maioria das vezes, a comida jogada fora, ainda é perfeitamente comestível. Os pequenos agricultores estão enfrentando muitas dificuldades em manter trabalho, porque o mercado global os manda competir em preço e quantidade. Este modelo também é muito perigoso para o ambiente, porque ele usa muita água, destrói a biodiversidade a nível mundial, que esgota a fertilidade dos solos.

O senhor vê mudanças nos hábitos alimentares do início do Slow Food até hoje?
O que estamos testemunhando, em todo o mundo, é que um número crescente de pessoas está prestando mais atenção à história de um produto, às matérias-primas e aos seus vínculos com a saúde e o bem estar.

 

 

Com filosofia do alimento “Bom, limpo e justo”, líder do slow food chega a BH

Carlo Petrini estará em BH, nesta terça-feira, na Casa Fiat

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por