'Como Nossos Pais' discute diferentes gerações do feminino

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
Publicado em 23/08/2017 às 17:50.Atualizado em 15/11/2021 às 10:13.
 (Imovision/divulgação)
(Imovision/divulgação)

GRAMADO (RS) – Paulo Vilhena arranca risadas e aplausos da plateia ao apontar a posição do homem na sociedade de hoje: “Tem que ficar quietinho”. Para o ator, não resta outra possibilidade ao universo masculino do que ver “essas transformações que estão ocorrendo, como o empoderamento feminino e a luta LGBT, como algo positivo para o futuro”.

A abordagem do tema não é por acaso. Exibido no 45º Festival de Cinema de Gramado, o filme “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky, põe em pauta o protagonismo feminino a partir da relação entre duas mulheres, uma mãe (Clarisse Abujamra) e sua filha (Maria Ribeiro), esta no meio do caminho entre um modelo antigo e as conquistas atuais.

Rosa começa a história na função da mulher que se desdobra para ser dona de casa, boa esposa e mãe e ainda trabalhar fora, criticada pela mãe imperativa. “É um filme sobre a relação entre mulheres, no que há de complexo na relação entre mãe e filha. Esse atrito passa a ser necessário, para que a personagem saiba quem ela é, para que algo aconteça”, registra o roteirista Luiz Bolognesi.

Embora também seja um desencadeador dos conflitos de Rosa, o personagem do marido vivido por Vilhena não é tratado de forma maniqueísta. Ao contrário, Bodanzky buscou um ator generoso e amoroso. “A gente teve uma preocupação de não fazer um discurso das mulheres contra os homens. Tem que ficar gostoso para todo mundo”, afirma a diretora.

Ela recorre a uma ilustração feita pela psicanalista Maria Rita Kehl, para quem homem e mulher dividem um cobertor curto. “É natural que a mulher puxe com o cobertor com mais força agora, porque aquele que puxa é quem está com mais frio. Durante toda a história da humanidade, ele ficou mais para o lado do homem”, registra Bodanzky.

A cineasta de filmes como “Bicho de Sete Cabeças”, “Chega de Saudade” e “As Melhores Coisas do Mundo” não tem dúvidas de que é muito bom ser mulher hoje. “Mais do que na semana passada. E com certeza amanha será melhor ainda”, observa Bodanzky, destacando a solidariedade entre as mulheres, “com uma sendo solidária a outra”.

Não faltou quem quisesse levar a história fictícia para o plano real, já que diretora e roteirista encerraram recentemente um casamento de 20 anos. “Temos uma relação ótima. O que aconteceu é que descobrimos que estávamos mais atrapalhando, se machucando. Acaba virando outra coisa que não amor”, explica Bolognesi, que continue parceiro de Bodanzky na vida profissional – O próximo trabalho da dupla é sobre Dom Pedro I em sua fase jovem.

A comparação entre realidade e ficção rendeu outras situações divertidas no debate do filme, em Gramado. Quando falou da identificação de todos os participantes com a narrativa, Bodanzky assinalou que estava representada no filme, assim como Maria Ribeiro. A atriz, porém, que é casada com o ator Caio Blat, advertiu: “Eu não! Minhas amigas que estão!”.

Na verdade, Maria Ribeiro lutou pelo papel desde que o roteiro chegou às suas mãos. “Sempre quis trabalhar com a Laís e queria muito fazer. Minha mãe é mais velha, tem 79 anos, e realmente existe esse desejo de projetar os sonhos nos filhos”, salienta. No set, Clarisse Abujamra ajudou a aumentar o clima de atrito, por sua postura mais chamativa.

“A Clarisse tem um corpo invejável. E ela sabe que tem. Quando ela chega, não fica invisível. É algo natural dela”, lembra Maria Ribeiro. Bodanzky reforça que seus filmes são de personagens e, ao escolher seu elenco, conhece bem os limites de cada um. “Sabia o ponto de vista da Clarissa, assim como da Maria Ribeiro, que sempre falou do tema da mulher no programa ‘Saia Justa’, da GNT”.

Inspirado na música de Belchior e eternizada na voz de Elis Regina, “Como Nossos Pais” será lançado na próxima semana em todo o Brasil. E poderá ganhar um empurrão extra na divulgação com um possível troféu Kikito para a dupla de atrizes principais.

(*)  O repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado

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